OPINIÃO - Controle biológico de corós
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 20 de outubro de 2006
Márcio Voss, José R. Salvadori e Paulo R. V. Pereira 
O coró-das-pastagens e o coró-do-trigo são duas pragas de solo de importância econômica da cultura do trigo, de outros cereais de inverno e mesmo de culturas de verão, como o milho e a soja. O controle químico dessas larvas de besouros escarabeídeos representa custo elevado para essas lavouras.
Não existe controle biológico que possa ser aplicado visando o controle destes corós e de outros que estão surgindo no Sul do Brasil. Em outros países é usado um tipo de nematóide no controle de insetos de solo, chamado de nematóide entomopatogênico (NEP).
Ao contrário de fungos e bactérias entomopatogênicos, que ficam praticamente imóveis no solo, os NEPs têm a capacidade de deslocar-se em busca do inseto-alvo, matando-o em cerca de dois dias. Eles se multiplicam dentro do inseto e quando o alimento escasseia, produzem um estágio larval resistente, que abandona o cadáver em busca de outro inseto.
Enquanto eles não o encontram, não se alimentam. São específicos para insetos e não atacam plantas, pois não dispõem de estilete para se fixar nelas. NEPs têm sido usados em nível comercial, especialmente no hemisfério norte, para proteção de diversas plantas frutíferas e ornamentais. Grandes áreas de citros são tratados com NEPs nos Estados Unidos, para controlar certos besouros que atacam raízes e contra os quais inseticidas não são eficientes.
Preocupações com a saúde das pessoas têm levado ao incremento do uso de NEPs no controle de corós em campos de golfe, bem como para substituir alguns inseticidas em casas de vegetação e viveiros na Europa. Os NEPs entomopatogênicos pertencem aos gêneros Heterorhabditis e Steinernema e, embora outros gêneros de nematóides possam ocorrer naturalmente parasitando insetos, eles são os mais usados no controle de corós.
A adequação dessa técnica para as condições de cultivo de trigo no Sul do Brasil e a disponibilização de produtos comerciais podem ser feitas dentro de lapso de tempo não muito longo. Já existe uma biofábrica de NEPs em funcionamento no Brasil, no Instituto Biológico, em Campinas (SP) onde são produzidos NEPs eficientes no controle de cigarrinha-da-raiz, em cana de açúcar. Esta tecnologia de controle está em fase de demonstração em nível de lavoura, no estado de São Paulo.
A Embrapa Trigo, que tem estudado os corós em trigo e em outras culturas do sistema de produção de grãos nos últimos vinte anos, acredita na possibilidade de controle de corós com NEPs em médio prazo e enviou um de seus pesquisadores para especialização nesse assunto, na Universidade Estadual de Ohio (EUA), no ano que passou. No momento, dois projetos estão sendo elaborados para selecionar NEPS eficientes e adaptar essa técnica para o controle de corós em cereais de inverno. Trabalhos estão sendo desenvolvidos em parceria com a Universidade Federal de Pelotas (RS), Universidade Federal de São Carlos (SP) e a própria Universidade Ohio.
Os agricultores já demonstraram sua capacidade de entender os benefícios de controle biológico, quando atuaram decisivamente junto com a extensão rural e a Embrapa na disseminação de inimigos naturais (vespinhas) de pulgões do trigo, visando substituir inseticidas. Os benefícios do projeto de controle biológico dos pulgões de trigo superaram as expectativas. A Embrapa Trigo aposta que, em se desenvolvendo um bom bio-inseticida para controle de corós, encontrará receptividade junto ao agricultor.
(*) Pesquisadores de entomologia da Embrapa Trigo


