É notório aos olhos da economia mundial que o Brasil é a grande fronteira agrícola do século XXI. Não nos faltam extensão territorial e clima propício, somados às grandes bacias hidrográficas para as mais variadas culturas. Acima de tudo, não faltam empreendedores que podem interagir na produtividade agrícola, pecuária, avícola etc. Nesse cenário esplêndido, entretanto, encontra-se uma distorção: a desencontrada política e os escassos investimentos públicos no setor.
Pode-se afirmar, sem medo de errar, que os maiores investimentos no setor são de origem privada e que uma boa parcela de capital de investimento migra do exterior para nossas terras. Os grandes conglomerados internacionais produtores estão aí, brigam pelos transgênicos e dominam a produção, bem como a distribuição, influenciando inclusive os índices das bolsas de valores. Dizer que o Brasil é o celeiro do mundo é afirmar uma dura realidade, pois o grande problema é que deveríamos ser, em primeiro lugar, donos absolutos desse ''celeiro'' e não deixar essa administração nas mãos do ''mundo''. Também não podemos, de forma tupiniquim, admitir que temos a plena concepção e tecnologia para administrarmos nossas riquezas com a excelência necessária.
Na terra onde ''em se plantando tudo dá'', fica uma sensação incômoda de que, apesar de produzirmos muito e com qualidade, devemos estar atentos diuturnamente às investidas do capital especulativo estrangeiro. Não deixar essa riqueza sob domínio de outros passa a ser um segundo desafio para alcançarmos o outro lado dessa fronteira. Como fazer para desenvolver de maneira coerente o avanço tecnológico, aprimorando os procedimentos de produção agrícola e de outras culturas, se, para isso, necessita-se de capital? Nada mais óbvio do que forçar o governo a abrir novas linhas de crédito agrícola, com juros subsidiados à produção.
Por outro lado, ao observar algumas sólidas experiências do sistema cooperativo de produção agrícola, como a Holambra, extraem-se algumas lições. Aprende-se que a cultura do cooperativismo deveria difundir-se cada vez mais, criando condições permanentes de identificação do potencial humano de empreendedorismo, potencial este ''adormecido'' em grande parte dos pequenos produtores rurais. Para que haja efetivamente essa disseminação, é preciso investir em educação - educação em todos os níveis, pois somente possibilitar que determinada sociedade cooperativa adquira, por exemplo, tecnologia de ponta, não dá a certeza de funcionamento eficaz desses recursos.
Ao observarmos determinadas regiões, principalmente no interior do Estado de São Paulo, teremos a nítida impressão de que um sistema privado de monocultura está devorando milhões de alqueires, rapidamente, através da mecanização do cultivo e colheita, empurrando uma numerosa massa de trabalhadores para as regiões urbanas. O pequeno produtor rural, frente a essa realidade, sem a educação necessária para o desenvolvimento de iniciativas empreendedoras e sem crédito agrícola acessível, vê-se forçado a vender suas terras e a abandonar o campo.
Desnecessário discorrer sobre os efeitos nefastos que tais processos nos reservam em um futuro próximo. A concentração da produção rural nas mãos de poucas empresas pode nos indicar o truste mundial na área de alimentos. Quem combaterá aqueles que nos fornecem a comida?
Com o fomento às cooperativas de pequenos produtores, podemos criar uma luz no fim desse túnel, propiciando às novas gerações uma possibilidade de continuidade da fixação do trabalhador rural no campo, produzindo (muito) e vivendo (bem) de sua própria cultura, agora administrada como negócio rentável. Isso requer um grande esforço e consciência de todos os envolvidos. Quem será o primeiro a dar esse passo? Aqueles que já o fizeram, estão colhendo os bons frutos que o cooperativismo oferece como recompensa ao trabalho associado. Basta observar outros países e as experiências brasileiras.
DANIEL AUGUSTO MADDALENA é consultor especializado em cooperativismo

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