OPINIÃO - A saga do agricultor
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sexta-feira, 22 de julho de 2005
Amélio DallAgnol 
Não fez ainda dois anos que um alto comissário das Nações Unidas declarou que o ''Brasil caminha para ser o futuro grande provedor de alimentos da humanidade''. Pouco tempo depois, durante a realização da VII Conferência Mundial de Pesquisa de Soja, ocorrida em março de 2004, em Foz do Iguaçu, o Dr. Harold Kauffmann, professor emérito da Universidade de Illinois, declarou que o ''Brasil será no século XXI, o que foram os EUA no século XX'', período durante o qual eles reinaram absolutos no mercado internacional da soja.
Corroborando tais manifestações, mais recentemente, um alto dirigente da FAO acrescentou ''o Brasil poderá se tornar o maior beneficiário do comércio mundial de produtos agrícolas nos próximos dez anos'', para o que, um alto representante da OCDE, baseado em estudo conduzido conjuntamente com a FAO, emendou: ''o Brasil continuará a crescer, mesmo com as distorções promovidas no comércio mundial pelos subsídios praticados pelos países desenvolvidos''. Agora, em 23 de Junho, o mais prestigiado jornal econômico europeu, o inglês Financial Times, estampou em suas páginas: ''o Brasil está para a agricultura, assim como a China está para os manufaturados: é uma potência agrícola a cujo tamanho e eficiência, poucos competidores são capazes de igualar. Apesar de enfrentar uma das mais altas tarifas agrícolas do Ocidente (média de 30% sobre suas exportações), o país é o maior ou o segundo maior produtor de açúcar, soja, suco de laranja, café, tabaco e carne bovina e está ocupando rapidamente posições fortes na produção de algodão, frango e carne suína''.
Mas quem são, onde estão e como se sentem os protagonistas desse espetáculo que tem atraído tanta atenção da imprensa e dos organismos internacionais?!
São os produtores rurais, que hoje, 28 de julho, comemoram o seu dia. Atores principais de um Brasil que deu certo, eles estão calados e apreensivos: o Brasil vai bem, mas eles vão mal. Os custos de produção subiram, os preços pagos pela produção caíram e as dívidas se acumularam. De que servem os elogios que chegam do exterior?! Melhor seria o reconhecimento interno, traduzido em desenvolvimentos na propriedade e materializados em máquinas novas, cerca arrumada, filho na escola, dívidas saldadas e crédito na praça.
Bem que esses heróis anônimos mereciam melhor sorte. Eles sabem que a agricultura não oferece oportunidade de receber uma bolada de dinheiro todo o mês, mas é expectativa de todo o produtor rural receber a cada seis meses. Um semestralão por conta das boas colheitas das culturas de inverno e outro, pelas boas colheitas dos cultivos de verão. Pelo menos isto, para quem não pode fazer greve contra si próprio, já que, embora marginalizado, é patrão e o máximo de mobilização que consegue é um tratoraço, de vez em quando.
Agricultor, não desista. A persistência é o caminho do êxito. O campo é mais importante que a cidade: ''se as cidades forem destruídas e os campos permanecerem ativos, aquelas se reconstruirão. Mas se os campos forem destruídos, aquelas fenecerão'' (Abrahan Lincoln).
AMÉLIO DALL'AGNOL é pesquisador na Embrapa Soja em Londrina


