OPINIÃO - A ameaça dos nove bilhões
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sexta-feira, 09 de setembro de 2005
Gilberto R. Cunha 
Quem costuma olhar o mundo um pouquinho só que seja além do seu tempo (pouquinho mesmo) já pode, com relativa facilidade, sentir o hálito quente de nove bilhões de seres humanos clamando por uma alimentação de qualidade e por condições dignas de vida, nesse nosso não tão ilimitado assim planeta Terra. Pois é, chegaremos, tranquilamente, nos próximos 20 a 25 anos, à quantia nada desprezível de mais três bilhões de almas para cuidar e do mesmo número de bocas pedindo comida. Para isso, basta que os índices de natalidade continuem nos mesmos níveis do fim do século 20. Por baixo, são 200 novos irmãozinhos que se juntam a nós a cada minuto que passa. E o que é pior: 90% deles nascem em países pobres e no seio dos mais pobres entre os pobres.
A questão que se impõe, diante dos números, diz respeito ao futuro: comida e oportunidades econômicas para a maioria (para todos, queira Deus) versus escassez de alimentos e comprometimento da sobrevivência de muitos. Que a situação tende a piorar, se nada for feito, só não vê quem não quiser. Pois, mesmo que algumas estatísticas sinalizem que o crescimento da população global esteja diminuindo (alvíssaras!), estamos caminhando a passos largos rumo aos nove bilhões de humanos. E, se a coisa já não anda boa, hoje, com, pelo menos, 840 milhões de pessoas, literalmente, passando fome no mundo e mais dois bilhões de indivíduos sofrendo de desnutrição, conforme números de 1998 (antigos e talvez ultrapassados), não há porque sermos indiferentes ao ''crescei e multiplicai-vos''; muitas vezes irresponsavelmente.
Pode parecer, pelo descrito, que a humanidade esta num beco sem saída. Até porque gente com fome e problemas podem ser considerados, em termos práticos, como sinônimos. Não se pode fechar os olhos para isso. Não é por nada que Norman Borlaug, do alto de sua autoridade, assegurada pelo Nobel da Paz em 1970, tem declarado pelos quatro cantos do mundo (inclusive quando andou por Passo Fundo, há poucos anos, em visita à Embrapa Trigo), que ''hungry people become angry people; they don't buy food, they buy guns''. A sonoridade dessa frase, por uma questão de rima, fica melhor na língua inglesa. Todavia, não perde a força do seu significado, quando vertida para o português. Sem qualquer pretensão de tradução oficial, alguma coisa do gênero: ''pessoas famintas se tornam pessoas raivosas; elas não compram alimentos, elas compram armas''. Algo que soa familiar para nós, diga-se de passagem.
Paz social e alimentação de qualidade se confundem. Se, por vários indícios, a população mundial não vai parar de crescer, podendo chegar aos nove bilhões de indivíduos antes mesmo do tempo previsto (25 anos), a única saída parece ser aumentar a produção de alimentos. Ou, melhor ainda, aumentar a eficiência dos atuais sistemas de produção agrícola. E essa solução que, a primeira vista, poderia parecer simples, tem-se mostrado deveras complicada; particularmente diante das fragilidades do ambiente e das intrincadas relações sociais estabelecidas. Estamos, de fato, frente a uma questão de segurança alimentar; mais que propriamente de produção de alimentos. Eis a questão: como produzir alimentos em quantidade suficiente e garantir que todos tenham acesso indistinto aos mesmo? E mais: em níveis sustentáveis. Resposta: com desenvolvimento científico e tecnológico socialmente comprometido.
Longe de qualquer defesa de interesses corporativos, mas o futuro da humanidade, no que tange ao abastecimento de alimentos, depende das ciências agrárias e do desenvolvimento de novas tecnologias. Mas não qualquer tecnologia. Por motivos óbvios: tecnologias que sejam economicamente viáveis (geradoras de renda), que respeitem o ambiente (o planeta tem limites), que sejam socialmente justas (não excludentes) e, por mais estranho que possa parecer, politicamente defensáveis.
GILBERTO R. CUNHA é pesquisador da Embrapa Trigo, de Passo Fundo/RS, e membro da Academia Passo-Fundense de Letras


