Onde o galo canta?
Onde o galo canta?
Humberto Carlos Vieira Codagnone
A pecuária de leite no Brasil tem evoluído de forma bastante positiva nos últimos anos, no entanto persistem certos posicionamentos preconceituosos moldados nos tempos de intervenção no mercado do leite.
Em abril de 1996 o Governo removeu o último entulho de intervenção no mercado do leite (Folha de Londrina, 27/5/96). Muito difícil, no entanto, é remover os entulhos que existem na cabeça de alguns líderes rurais e de muitos técnicos ligados ao setor leiteiro. Estes entulhos referem-se à visão que estas pessoas têm de aspectos como custo de produção, preço do leite, tecnologia, papel social do leite, e produtividade.
Alguns preconizam a necessidade de se trabalhar em gerenciamento de custos como se a redução de custos fosse a panacéia para todos os males, presentes e futuros, da pecuária de leite.
Muitos economistas defendem a tese de que não existe custo de produção médio e nem custo de produção referencial. Custo de produção é do sistema produtivo e o mesmo sistema, usado em propriedades diferentes, pode ter custos completamente diferentes uns dos outros, dependendo da manipulação dos fatores produtivos envolvidos em cada fazenda. Em outras palavras, é uma bobagem falar em custo de produção: tem-se que falar em margem líquida por litro de leite ou por vaca ou, ainda, por unidade de capital investido.
No Brasil, preocupamo-nos com o custo de produção, porque fomos treinados - e aí está mais um entulho - a pensar no custo pela planilha oficial, e nunca pensamos no ganho que temos que ter no processo. Na realidade, o que interessa é o ganho, não o custo. Trabalho realizado na Nova Zelândia mostrou, na época, que as margens na Nova Zelândia (custo baixo) e nos Estados Unidos (custo alto) foram exatamente as mesmas por vaca. Em outras palavras, o problema não é o custo, mas a margem.
O problema margem, por sua vez, está atrelado à escala de produção. Estudos feitos no Brasil e no Exterior mostram que a produção de leite só se viabiliza como negócio quando se alcança uma escala adequada que possibilite um volume de renda/receita satisfatório.
O gráfico 1 mostra, para um mesmo custo e nível de produção (15 kg/vaca/dia), que o número de vacas necessário para manter a mesma receita líquida passou de 50 para 90 quando o litro de leite caiu de R$0,22 para R$0,14. Isto significa dizer que a escala é determinante para a exploração leiteira, principalmente num mercado livre em que os preços estão sujeitos a alterações repentinas. Estudos realizados em Minas Gerais dão conta de que um resfriador de leite só se viabiliza na propriedade a partir de 150/200 litros/dia.
O gráfico 2 mostra que o número de horas de trabalho por vaca diminui em relação direta ao número de vacas no rebanho, o que significa menor custo por vaca ordenhada nos rebanhos maiores. Isto mostra que os custos fixos de um pequeno produtor são maiores do que um médio ou grande produtor e que é muito difícil reverter este fato.
A eterna reclamação por preço é mais um entulho que sobrevive. O mercado estabelece o preço de qualquer produto, seguindo a lei-da-sanfona: quem produz quer abrir o fole da sanfona ao máximo; quem compra, quer fechar a sanfona. Do meio-termo nasce a luz, ou, em outras palavras, o preço do produto no mercado.
Por mais estranho que possa parecer, esta é uma lei natural que se sobrepõe a toda espécie de intervenção, quer governamental ou particular. Chorar por preço de leite, como fazem ainda muitos produtores e técnicos, é uma ladainha ultrapassada. Como explicar que no período de 1980 a 1994 a produção brasileira de leite subiu 50% enquanto o preço pago ao produtor caiu em torno de 40%? É bom lembrar que na época do tabelamento a produção leiteira ficou praticamente estagnada no Brasil. Hoje a produção bate na casa dos 19 bilhões de litros/ano.
Muitos continuam acreditando na via tecnológica para baixar os custos de produção e contam com a esperança de conseguir dinheiro do Governo para instalar estruturas caras para geração e difusão de tecnologias, e que, a médio prazo, vão-se revelar ineficientes. Existe hoje um estoque tecnológico, ao alcance de qualquer um, capaz de, sem grandes complicações, quintuplicar a média nacional (menos de 1000 litros/ha/ano). Muitos produtores têm literalmente quebrado com a introdução de tecnologia desnecessária e que ao invés de resolver problemas determinam a insolvência desses produtores. Mesmo novas tecnologias muito bem afinadas e calibradas dificilmente garantem a sobrevivência de sistemas que não obedecem os conceitos elementares de economia leiteira de escala. Não significa dizer que a geração de tecnologia seja desnecessária; o que não se pode acreditar é que a tecnologia de per si resolva os problemas de produtores para os quais, na realidade, não existem soluções isoladas.
Outro entulho que persiste é o pensamento de que a exploração leiteira tem um papel social relevante na fixação do homem ao campo e que vale a pena mantê-lo no negócio a qualquer custo, mesmo com a sua miserabilização.
O pequeno produtor é, na realidade, o maior problema que as cooperativas têm hoje, embora não queiram reconhecer e não tenham, salvo rarissimas exceções, criatividade para resolvê-lo. Na maioria das cooperativas, o recebimento do leite é assimétrico, com poucos produtores entregando e muitos entregando pouco. Dados da Cooperativa Central dos Produtores de Leite (Minas/Rio), no período de 1986 a 1990, mostram que cerca de 40% de seus fornecedores entregaram até 25 litros/dia e foram responsáveis por menos de 8% do volume comercializado. No Norte do Paraná temos um quadro semelhante, uma vez que cerca de 40% dos produtores cooperados produzem, em média, 35 litros/dia e 31% dos cooperados produzem 76 litros/dia, o que representa 70% dos produtores. Aqui, mais uma vez, a palavra mágica é volume de produção, e o caminho é o associativismo, coisa que boa parte das cooperativas já esqueceu.
Recentemente, viu-se grande movimento no sentido de articular a vinda de instituição federal de pesquisa para o Norte do Paraná, como se essa fosse a solução para os problemas que afligem o setor leiteiro. No meu entender, as partes envolvidas são incapazes de dimensionar o problema e cometem um erro primário ao desprestigiarem toda a estrutura técnico-científica existente na região.
O autor, MS em Zootecnia, é zootecnista em Londrina.





