Oferta ampla de trigo reduz risco de pressão inflacionária
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sábado, 25 de outubro de 2014
Jane Miklasevicius<br>Agência Estado 
São Paulo - A Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo) trabalha com um cenário de estabilidade para os preços do grão nesta safra. Segundo o presidente da entidade, Sérgio Amaral, a produção de 7,5 milhões de toneladas de trigo no Brasil, 50% acima do colhido em 2013, e a oferta ampla também no Paraguai e no Uruguai sinalizam para abastecimento tranquilo e preços mais baixos. No mercado internacional as cotações do cereal também vêm refletindo a maior disponibilidade nos países produtores. "A tendência é de estabilidade, mas não é possível fazer projeções porque há outras variáveis na economia", disse ele durante a apresentação do 21º Congresso Internacional do Trigo, que aconteceu esta semana em Foz do Iguaçu. Questionado sobre a possibilidade de o pão contribuir desta vez para reduzir a inflação, Amaral disse que o preço final para o consumidor depende das padarias, que consideram outros custos além da farinha, que representa cerca de 70% do valor do produto.
No primeiro semestre, o impacto do pão e das massas na inflação, em virtude dos preços altos do trigo, fez o governo retirar a Tarifa Externa Comum (TEC) de 10% na importação do cereal de países que não integram o Mercosul. A isenção do imposto já havia sido adotada em 2013, quando a oferta do grão era restrita no mercado interno e também nos países vizinhos. Para Amaral, a retirada da TEC foi importante, mas a forma como foi adotada não agradou. "Os moinhos precisam de previsibilidade, pois entre o momento da compra e o recebimento do trigo se vão 45 dias. E nem sempre a indústria teve esse tempo para planejar a compra", afirmou. Nas contas da Abitrigo, do volume total autorizado para importação sem a tarifa, de 60% a 70% foi aproveitado. Os Estados Unidos foram o principal fornecedor.
Para 2015, a Abitrigo acredita que não será preciso facilitar a importação de terceiros países. "Não sabemos qual será a produção na Argentina nem se haverá retenção de exportação por parte do governo local, mas Uruguai e Paraguai deverão compensar possível ausência. Além disso, teremos mais produção brasileira", destacou.
A sinalização de oferta volumosa no Brasil não significa necessariamente que todo o trigo será aproveitado para moagem. O excesso de umidade no Rio Grande do Sul, por causa das chuvas, está preocupando porque pode afetar a qualidade do cereal. Em geral, de 15% a 20% da produção brasileira, de acordo com a Abitrigo, representa tipo pão ou melhorador - W 240 e com 12 a 13 de estabilidade. Cereais com especificações abaixo dessas precisam ser mesclados com trigo importado. Por isso, independentemente do volume de trigo pão a ser ofertado nesta safra, a Abitrigo acredita que o Brasil continuará importando cerca de 50% das necessidades de moagem. Nos últimos anos, a utilização de cereal nacional não passou de 45% do total.
A perspectiva de uma produção de 7,5 milhões de toneladas no Brasil já obrigou o governo a intervir na comercialização da safra, lançando leilões de Prêmio Equalizador Pago ao Produtor (Pepro) para garantir preços mínimos ao triticultor - no mercado os valores estão abaixo do patamar. Conforme Amaral, a medida é importante e beneficia tanto o produtor quanto a indústria. Mas ele insiste que o governo ainda precisa atender demanda do setor para que estenda aos moinhos a possibilidade de acessar crédito do BNDES para armazenagem. "O produtor quer negociar a safra em três meses, mas os moinhos precisam atender a moagem durante 12 meses. Se não tiverem condições de armazenagem não poderão comprar."
Congresso
No congresso da indústria deste ano foram discutidos, além de questões referentes ao mercado do grão, a qualidade da produção nacional e hábitos que vêm sendo incorporados pela população e que impactam no consumo, como dietas sem glúten.


