O sonho da terra concretizado
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sexta-feira, 26 de agosto de 2005
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
Mais do que defender a reforma agrária, o agricultor Ildo Roque Calza acredita num Brasil mais justo. Seu ideal não é mais possuir um pedaço de terra para criar os cinco filhos e sim trabalhar para garantir que as crianças possam dar continuidade à sua luta no futuro.
Em janeiro de 1993, o agricultor e outros 15 pais de família aceitaram um desafio que modificou suas vidas. Incentivados pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) os lavradores, que antes viviam em assentamentos espalhados pelo Paraná, uniram-se na ocupação dos 236 hectares da Fazenda Santa Maria, em Paranacity (66 km ao norte de Maringá). ''A área estava desapropriada desde 1988, por isso não houve conflitos. A direção do movimento apenas reuniu famílias interessadas em trabalhar no sistema coletivo para ocupar a propriedade'', explica Valmir Stronzake, atual administrador da fazenda.
Depois de eliminar o canavial que dominava a paisagem, o grupo fundou a Cooperativa de Produção Agropecuária Vitória (Copavi) e deu início ao cultivo da mandioca e a criação de gado de leite. Um projeto elaborado pelo programa das Nações Unidas para o desenvolvimento da agricultura sugeriu ainda a implantação de um cafezal e uma horta hidropônica, que foi substituída pela produção orgânica de verduras e legumes.
Um financiamento do governo federal, conseguido em 1994, permitiu aos cooperados aumentarem o rebanho de vacas e investirem na criação de frangos e suínos. O excedente da horta orgânica passou a ser comercializado na cidade e a cooperativa ainda iniciou o cultivo de 20 mil pés de café. ''As adversidades climáticas comprometeram o cafezal e a criação de aves e suínos esbarrou na legislação sanitária'', assinala o administrador. Hoje, os cerca de 100 porcos e 3 mil frangos são destinados exclusivamente ao consumo dos associados.
Com o fracasso do café, a cooperativa retomou o cultivo da cana, investindo na fabricação de açúcar mascavo, melado, rapadura e cachaça. Também foi incrementada a produção de leite com a construção de um minilaticínio com capacidade para processar até 800 litros de leite/dia. A padaria completa a renda mensal das famílias, que gira em torno de R$ 800, segundo Stronzake.
Para ele, a união das famílias e o espírito de coletividade fazem o sucesso da cooperativa. Todos têm a posse da terra e participação nos lucros, que são divididos após o pagamento das despesas e do reivestimento nas atividades. As crianças frequentam a escola e os jovens cursam ensino superior. ''Eles são incentivados a procurar o melhor para cada um, mas se quiserem permanecer na terra, já têm emprego garantido'', diz.
Trabalhando no canavial, Ildo Calza se diz feliz com a escolha feita há 12 anos. Sua filha mais velha está casada e hoje administra a horta orgânica da cooperativa. Outra filha quer cursar a universidade, enquanto as outras crianças, com idade entre 10 e um ano, apenas estudam. ''Sou militante há 20 anos e percebi que só o sonho de possuir um pedaço de terra não garante a sobrevivência de uma família. É preciso organização para vender os produtos a um preço melhor, é preciso agroindustrializar a produção. E isso só ocorre em sociedade'', afirma. Para ele, a felicidade está em saber que seus filhos nasceram na vida coletiva, ''com a cabeça pronta para produzir além da subsistência'', comemora.
O presidente da Copavi, Jacques Pellenz, aponta apenas mais uma cooperativa que funciona de forma coletiva no Paraná, a Coprocerp, em Boa Ventura de São Roque (62 km ao norte de Guarapuava). ''Normalmente os agricultores se unem para conseguir a terra, mas a mentalidade individualista os impede de tocá-la em conjunto'', informa. Ele acredita que se todas as famílias ligadas à Copavi tentassem tocar a terra de forma individual já teriam desistido do campo. ''Não é fácil abrir mão do 'eu', mas os resultados da coletividade são muito positivos'', finaliza.


