Além das dificuldades inerentes e conhecidas das atividades agropecuárias, os produtores rurais se deparam com um problema atual motivado pela globalização da economia, que exige produtos de qualidade a preços competitivos, e pela crescente conscientização coletiva da necessidade da preservação dos recursos naturais, que acaba impondo limites ao processo de produção. Daí uma questão cada vez mais comum: será possível explorar um recurso natural visando a produção economicamente viável, sem degradá-lo?
Vejamos do ponto de vista do solo, que é a maior riqueza de uma região. O solo é a cobertura superficial dos continentes e está em constante evolução e transformação. É um meio organizado, vivo e extremamente complexo que as sociedades utilizam de quatro formas diversas: extração mineral, suporte das obras e construções, para depuração dos resíduos orgânicos e para exploração agropecuária, área em que suas funções se multiplicam, sendo de competência da agronomia a geração de informações.
No campo agronômico, suas diversas atribuições receberam atenções diferenciadas, geradas pelos diferentes campos de especialização. Não obstante o volume de informações acumuladas ser grande, torna-se particularmente inquietante observar que, frequentemente, surgem evidências de que não são suficientes para explicar a maioria dos efeitos que envolvem o solo agrícola, principalmente no aspecto físico.
No solo, as propriedades químicas, físicas e biológicas são dinâmicas e se complementam, podendo exercer grandes influências umas sobre as outras. O equilíbrio destas propriedades pode ser considerado como fertilidade, e o desequilibrio imposto como degradação. Solos naturalmente férteis são solos que atingiram este equilibrio num processo de evolução natural, nos quais a exploração deve visar sua preservação imitando suas condições naturais, reduzindo ao máximo as agressões. Já em solos de menor fertilidade as ações podem interferir diretamente numa ou noutra propriedade, alterando-a para buscar este equilibrio.
Sob este ponto de vista, tornam-se fundamentais pesquisas que integrem as propriedades do solo com um objetivo comum: o de obter sempre produtividades aceitáveis, associadas à preservação do meio, permitindo que as atividades agrícolas perpetuem-se ao longo das gerações. Embora estudos desta natureza sejam complexos, é este o grande desafio que se coloca atualmente aos estudiosos da área e aos produtores rurais. Urge definirmos quais são as capacidades produtivas de cada tipo de solo e é preciso que haja um profundo respeito à esta capacidade.
Algumas regiões da Europa, por exemplo, conseguiram altíssimas produtividades de cereais por alguns anos, porém as práticas adotadas causaram tamanho dano ao meio ambiente, que os recursos necessários para minimizar os efeitos negativos são maiores do que as receitas obtidas com as produções.
Nesse sentido a fertilidade deixa de ser representada somente pelo aspecto químico. A capacidade de produção depende, e muito, das características morfológicas do solo como: características das partículas que o compõem, organização e arranjo destas partículas (ou agregados); a porosidade que é influenciada pela atividade biológica e a natureza e a intensidade das ligações entre elas que é afetada por algumas características químicas e pela presença de matéria orgânica; ou seja, esta capacidade de produção depende de uma característica estrutural do solo. Analogamente podemos comparar com um edifício em pé e intacto, e o mesmo implodido. Evidentemente não são a mesma coisa, porém têm os mesmos constituintes, o que se alterou foi a organização destes constituintes, sua estrutura.
A análise de alguns constituintes do solo, ou de algumas de suas características sem uma avaliação de sua estrutura, pode não representar fielmente a condição deste solo. Portanto a estrutura do solo passa a ter importância além dos aspectos físicos propriamente ditos, porém, afirmar que este parâmetro é o mais importante seria leviano, dada a consideração de que todas as propriedades são interdependentes, e o que se deve buscar é o equilibrio entre elas. A análise estrutural do solo permite bem representar as condições deste equilibrio, mesmo porque a estrutura é o primeiro aspecto do solo afetado pela exploração agrícola.
A durabilidade, conhecida como sustentabilidade da atividade agropecuária, depende, em parte, de uma avaliação feita pelos meios científicos dos comportamentos dos diversos tipos de solo, gerando informações, mas também de uma atitude responsável das áreas de produção que visem a preservação deste recurso natural, que é esgotável quando explorado inadequadamente. Portanto, a produção com preservação do meio ambiente é possivel, e deve ser empregada como um bom argumento mercadológico e até de eventual diferencial de preços dos produtos finais.
O autor é professor de mecanização agrícola do Departamento de Agronomia da UEL e pesquisador em manejo de solo

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