OPINIÃO
O setor sucroalcooleiro e o pacto



Paulo Varela Sendin

A cadeia sucroalcooleira está dando um exemplo ao agronegócio brasileiro. Em São Paulo o pacto estratégico que coordena as ações daquela cadeia já foi assinado e no Paraná o assunto também está encaminhado.
O espírito desse Pacto (e, diga-se de passagem, no ‘‘Aurélio’’, espírito é sinônimo de álcool...) é o reconhecimento das responsabilidades sociais da Cadeia Produtiva.
Embora sejam listadas 66 ações a serem desenvolvidas pelo setor público e pela iniciativa privada, o acordo firmado se assenta sobre três pilares: a geração de emprego, o respeito ao meio ambiente e a satisfação da demanda.
A ênfase dada à geração e manutenção do emprego em toda a cadeia garantiu a adesão dos trabalhadores, normalmente acostumados a pagar as contas, do modo mais dolorido que é a perda de postos de trabalho, quando se fala em aumento de produtividade e redução de custos.
No que se refere à preservação do meio ambiente, a formulação do pacto, ao mesmo tempo que compromete todos os atores da cadeia com esse objetivo, sinaliza claramente para a Sociedade as grandes vantagens comparativas que o álcool proporciona, tanto no sistema de produção agrícola (pelos aspectos positivos de manejo do solo) como no uso final em forma de combustível.
A terceira coluna do pacto talvez seja seu aspecto mais importante. Houve um reconhecimento, por parte de todos os atores da cadeia, de que a sustentabilidade e expansão do setor estão umbilicalmente ligados à existência de uma demanda crescente. Sem demanda por álcool em níveis significativos, não haverá produção na usina, nem compra de cana do fornecedor, nem emprego no campo ou na indústria. E, para o Governo (e, por conseguinte, para a Sociedade), não haverá arrecadação de impostos nem o fornecimento de serviços à população. Além desses impactos diretos, uma drástica redução na produção de álcool no Brasil desestruturaria o mercado de açúcar a nível mundial, levando o mercado a praticar preços que inviabilizariam a rentabilidade de todos os participantes da cadeia.
Assim, o consenso obtido, em relação às ações a serem desenvolvidas no sentido de estimular e perenizar a demanda, pode ser considerado como o avanço mais importante do pacto. Esse aspecto, aparentemente óbvio, de que sem demanda não existe a cadeia (qualquer cadeia...) deveria ser objeto de profunda meditação por parte dos atores de todas as cadeias do agronegócio brasileiro. A usual tendência dos vários agentes das Cadeias Produtivas em buscar seus interesses próprios, pode levar a bons resultados particulares no curto prazo. A sustentabilidade a longo prazo, no entanto, fica inevitavelmente comprometida se alguns atores da cadeia sofrem prejuízos irreparáveis. Agora, se nesse processo egoísta se preservam interesses de alguns atores em detrimento de outros, ou, mais ainda, em detrimento da demanda, a cadeia estará irremediavelmente fadada a desaparecer no longo prazo.
Pode-se dizer, portanto, que o espírito do pacto da cadeia sucroalcooleira é o do respeito ao principal ator do fluxo produtivo, o consumidor, que se situa no fim desse fluxo mas que, de fato, garante o fornecimento do combustível que movimenta todo o processo, ao comprar o produto final.
O autor é engenheiro-agrônomo em Londrina.

mockup