O sentido da integração agricultura e pecuária
Neste artigo, o pesquisador do Iapar sustenta que um bom planejamento forrageiro durante o ano pode elevar a produção de carne de 4 arrobas/ha/ano para 40 arrobas/ha/ano
Elir de Oliveira (*)
O a expressão ''integração agricultura e pecuária'' ou ''integração lavoura e pecuária'' tem sido usado no sentido de se estabelecer um modelo tecnológico de produção agropecuária que permita a intensificação da produção animal a pasto e a maximização do uso do solo.
Entretanto, no sul do Brasil a integração entre a produção de grãos e a produção animal já vem sendo feita há décadas de forma tradicional, quando as áreas de milho e soja dão lugar para a as pastagens anuais de inverno e verão, como aveia, azevém e milheto.
Na região Oeste do Paraná, principal bacia leiteira do Paraná, onde predominam pequenos produtores, toda produção de leite é baseada no sistema de integração da atividade agrícola e pecuária. Neste caso, as áreas são exploradas intensamente pela produção de soja/milho no verão e aveia no inverno, permanecendo áreas de pastagens perenes de Tifton 85, Coast-cross, hemártria e capim elefante.
Para a pecuária leiteira a integração agricultura e pecuária significa aumentar a eficiência da atividade diminuindo os custos de produção com a menor dependência uso de rações e concentrados. A intensificação da produção a pasto com uso mínimo de concentrado significa obter uma produção de leite mais modesta (de 12 a 18 litros por animal/dia) mas com resultado econômicos melhores, além de privilegiar a saúde e a longevidade da vida útil dos animais.
O segredo -- A obsessão pela produtividade por animal não apresenta resultados econômicos sustentáveis e a adoção da produção integrada revela que o segredo está na redução inteligente dos custos e na consciência de que um litro de leite não vai ser pago ao produtor o mesmo preço de uma garrafa de cerveja.
O sentido da integração lavoura e pecuária para o sul do Brasil é que estamos em uma região de clima sub-tropical com verão que apresenta altas temperaturas e chuvas abundantes e inverno frio com geadas. Isto significa que podemos ter pastagens perenes tropicais de alta produtividade como grama Tifton, Coast-cross ou capim elefante, Mombaça e Tanzânia. Como são todos materiais que não produzem no inverno e são sensíveis às geadas, a alimentação do plantel voltam-se para as áreas de aveia, ervilhaca, azevém e trevos, que passam a ocupar as áreas de soja e milho.
Pesquisas conduzidas pelo Iapar mostram que novos cultivares de aveia podem permitir uma produção de até 15 litros de leite por vaca/dia e que em anos normais suportam uma lotação de 3 UA/ha (1 UA= um animal de 450 kg) e um teor de proteína de cerca de 18 a 23%. Como os pastos tropicais bem manejados permitem uma lotação de 6-8 UA/ha e apresentam teor de proteína de 12-15%, então é possível manter os animais em pastejo na aveia em horário noturno ou pela manhã alternando com o pastejo no pasto tropical no restante do dia.
Adubar pastos - Para a pecuária de corte, a necessidade da integração da atividade agrícola com a pecuária torna-se fundamental pela baixa produtividade que as pastagens vêm apresentando, principalmente pela prática do extrativismo que ocorre, quando muitos pecuaristas ainda não acreditam que adubar e manejar o pasto dá dinheiro.
Muitas regiões apresentam na maioria das propriedade uma lotação menor que 1,5 UA/ha e tempo para abate que chega a 4-5 anos. Com a integração agricultura e pecuária, com bom planejamento forrageiro durante o ano, é possível elevar o patamar de produção de carne de 4 arrobas/ha/ano para cerca de 40-50 arrobas/ha/ano.
A idéia de que o pasto deve ficar na pior parte da propriedade ou classificar como ''terras ruins'' aquelas que só servem para pasto e que ''pastagem não precisa de adubo'' tem ficado cada vez mais fora de moda e colocado aqueles que ainda pensam assim em situação econômica descendente. Isto só funcionou quando nossas terras eram novas, com matas de perobas recém-abertas e a arroba do boi tinha um custo de produção de 15 dólares e era vendida a 45 dólares.
Vários trabalhos de pesquisas e dados obtidos com produtores no Paraná mostram que a produção de carne ou leite dá mais rentabilidade do que soja apenas.
Mas, como o ano tem 360 dias e o ciclo soja é de 135 dias, as atividades de produção animal e de grãos são perfeitamente compatíveis e é uma questão de planejamento da propriedade.
Vaca louca - O mais recente fato que mostra a viabilidade do sistema de integração lavoura e pecuária com a intensificação da produção animal a pasto é o surgimento da doença da ''vaca-louca''. Este grave problema tem causado pânico aos consumidores europeus pelo consumo da carne local. Este fato abriu grande espaço para o marketing da carne brasileira produzida a pasto em país tropical, o que lhe confere melhor qualidade e sabor.
A expectativa é que a partir de agora as pastagens tropicais perenes sejam tratadas como cultura e atingir nas propriedades o mesmo patamar tecnológico em que estão as culturas de milho, soja e trigo. Afinal, pesquisa e assistência técnica o Paraná tem!
(*) Pesquisador II do Iapar, líder do Programa Forrageiras e gerente do projeto ''Recuperação de Áreas de Pastagens Degradadas na Região Noroeste do Paraná''. Endereço: [email protected].





