O Rei do Feijão
Com a chegada do inverno resolvemos fazer uma feijoada lá em casa e fiquei encarregado de comprar o feijão preto. Fui à feira e depois de achar o que precisava, fiquei conversando com o feirante e admirando as variedades de feijão que vendem ali: branco, azuki, bolinha, carioca, fradinho, jalo, mulatinho, preto, rajado, rosinha, verde, vermelho...cada saca com sua coloração distinta, uma maravilha. Foi então que deparei com dois estudantes que, cumprindo tarefa escolar, entrevistavam um senhor a respeito da produção de feijão. Curioso, fiquei a escutar.
- O feijão, originário da América Central, é uma leguminosa consumida pelo homem há mais de dez mil anos, faz parte da história da humanidade e junto com o milho foi a base da alimentação de povos primitivos como os astecas, incas e maias, contava ele.
Enquanto um estudante filmava a conversa, o outro fazia as perguntas. Com gentileza e simplicidade, o homem se apresentou como Zé Cândido e continuou dizendo que os principais países produtores de feijão são o Brasil, Índia, Mianmar, Estados Unidos, China, México e Argentina. E o Estado do Paraná, prosseguiu, é o maior produtor nacional seguido por Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás, Bahia e São Paulo. Já o feijão preto é muito consumido no Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, enquanto que o feijão carioca tem grande aceitação nos outros Estados.
Interessado na conversa, me apresentei e falei: já que o senhor conhece bem o assunto, por que tem um feijão chamado "carioca", quando se sabe que no Rio de Janeiro o mais consumido é o feijão preto?

Como se estivesse esperando pela pergunta, ele chamou a atenção dos rapazes e pediu para que gravassem essa história:
- "Na década de 1970 alguns agricultores de Ibirarema e Palmital, no interior de São Paulo, encontraram no meio das lavouras um feijão diferente, de cor bege com listras marrons, que ninguém conhecia. Os especialistas dizem que deve ter ocorrido um cruzamento natural de outras espécies do grão, resultando num tipo com grande produtividade e resistência à doenças. Logo em seguida, um produtor mostrou a nova variedade aos pesquisadores do Instituto Agronômico de Campinas, que realizou testes, aprovou e começou a distribuir sementes para o cultivo em larga escala. Dali em diante o feijão carioca se tornou um sucesso! O mais interessante, porém, foi que os agricultores, creio que por gozação, batizaram o novo feijão em homenagem a uma raça de porco caipira comum naquela região e conhecida como "carioca", pelo fato do animal ter uma pelagem marrom clara e manchas escuras, bem parecida com o feijão que haviam descoberto. Essa história é verdadeira, aconteceu no interior paulista e por isso desmente aquela conversa fiada de que o nome "carioca" dado ao feijão, teria sido inspirado no famoso desenho do calçadão da praia de Copacabana no Rio de Janeiro".
- É um prazer conhecer uma pessoa com tanta sabedoria sobre feijão, afirmei.
- Onde o senhor aprendeu tudo isso? Perguntou um dos estudantes.
- Na lida e no estudo. Faz mais de cinquenta anos que trabalho nesse ramo. Sou bem mais velho que o feijão carioca, disse, rindo, o Zé Cândido. E se precisarem de mim e eu não estiver aqui por Londrina, é só chegar no Goiás e perguntar pelo Rei do Feijão.
GERSON ANTONIO MELATTI, leitor da FOLHA.





