As frutas vermelhas, como o mirtilo (blueberry), têm ganhado o gosto popular pelo sabor e por serem ricas em vitaminas e fibras e em substâncias que retardam o envelhecimento
As frutas vermelhas, como o mirtilo (blueberry), têm ganhado o gosto popular pelo sabor e por serem ricas em vitaminas e fibras e em substâncias que retardam o envelhecimento | Foto: Shutterstock



Tornar Londrina um polo produtor de frutas vermelhas é o novo projeto encampado pelo Sindicato Rural de Londrina para os pequenos produtores da região. A iniciativa se baseia na formação de uma associação, cooperativa ou sociedade empresarial, que permita a troca de assistência técnica e a implantação de uma agroindústria, para processamento de até 80% do que for colhido e fornecimento integrado a outras cadeias, como a de iogurtes.

As escolhidas para o projeto são conhecidas no Brasil como frutas vermelhas, ainda que nem sempre sejam da mesma cor, e internacionalmente como berries. Além da denominação, o mirtilo (blueberry), o morango (strawberry), a framboesa (raspberry), a amora (blackberry) e a physalis (goldenberry) têm em comum a perspectiva de rápido retorno financeiro mesmo em áreas menores e a facilidade de cultivo pela mão de obra familiar.

O objetivo é dar opções ao pequeno produtor de permanecer no campo, com boa renda em áreas a partir de 2 hectares. Ainda, o projeto vai ao encontro a uma mudança de percepção sobre a fruticultura no País, que passa a considerar cada vez mais esses produtos como commodities, dado ao maior interesse de mercados importadores como o europeu.

Não bastará, porém, produzir. O promotor da proposta dentro do Sindicato Rural, o engenheiro agrônomo Eduardo Rubiano, afirma que a intenção é que ao menos 30 agricultores se organizem em uma associação, cooperativa ou sociedade empresarial. Além do poder de decisão dividido, a expectativa é de que desenvolvam a cultura da frutas vermelhas em conjunto, com troca de informações, decisões em conjunto e escala para comercialização industrialização em sucos, polpas, geleias e afins.

O presidente do Sindicato Rural de Londrina, Narciso Pissinatti, afirma que é uma oportunidade para o pequeno produtor. "Essa alternativa vem sendo costurada há muito tempo com a Faep, o Iapar e a Embrapa, e é um produto que tem aceitação no mercado, pode ser industrializado e compõe bem com outros, como os lácteos", diz.

A industrialização é ponto-chave para Pissinatti. "Por exemplo, se tivermos excesso de chuvas como neste ano e a fruta não ficar bonita, poderia ser processada em sucos, compotas", sugere. "Mas é algo que, se for bem elaborado, pode concorrer no mercado de exportações", completa.

Rubiano afirma que há 32 frutas com potencial de produção e de aumento do consumo interno ou para exportação, como figo, pitanga, acerola, umbu e gabiroba. A escolha pelas berries é por permitir a diversificação dentro da própria propriedade e a chance de garantir a entrada de recursos durante boa parte do ano.

Tradicionalmente cultivadas em clima frio, esse tipo de fruta não deve ter problema para se desenvolver na região, diz Rubiano. O agrônomo afirma que há órgãos como a Embrapa que desenvolveram cultivares mais resistentes ao calor, pés de amora sem espinhos que facilitam a colheita, entre outros. "A região de Londrina tem a vantagem de não ser tão quente e de ter uma variação menor entre temperaturas mínima e máxima ao longo do ano", cita.

Quanto ao potencial de aumento de consumo, Rubiano diz que, quando se tira o morango da equação, o brasileiro consome uma média de 40 gramas de frutas vermelhas ao ano. "A grande parte é dentro de iogurtes, que trazem uns 5 gramas por pote. Não se consome muito mirtilo aqui pelo custo, mas isso muda com o aumento da produção", afirma o promotor do projeto.

Nos Estados Unidos, por outro lado, a demanda média somente por mirtilo foi de 950 g por pessoa em 2014, de acordo com dados do USDA (Departamento de Agricultura dos EUA, na sigla em inglês). "Para se ter uma ideia, as berries superaram no ano passado em rentabilidade as bananas, que é a fruta mais vendida no mundo e muito mais consumida", diz Rubiano.

No caso do morango, o volume aumenta. O consumo nacional está em 300 g ao ano, número que chega a 800 g na região Sul, segundo Rubiano. "Mas são 5 quilos nos Estados Unidos e 12 quilos na Letônia", diz. Por isso, ele acredita na tendência de crescimento da demanda interna desses tipos de frutas, da mesma forma como tem ocorrido no exterior. Conforme estudo do USHBC (Conselho de Blueberry Highbush dos EUA, na sigla em inglês), houve crescimento de 599% na comercialização de mirtilo naquele país entre 1994 e 2014.

De forma geral, as frutas vermelhas têm ganhado o gosto popular pelo sabor e pelas características nutricionais. Isso porque são ricas em antioxidantes, em vitaminas e em fibras, substâncias que retardam o envelhecimento, ajudam no funcionamento das células do corpo e na redução do colesterol prejudicial à saúde.

Imagem ilustrativa da imagem O potencial das frutas vermelhas



RENTABILIDADE ACIMA DA MÉDIA
A taxa interna de retorno das berries vai de 50%, no caso do morango, a 77%, para o mirtilo, segundo números apresentados pelo agrônomo e promotor do projeto de berries em Londrina, Eduardo Rubiano, em uma das reuniões com produtores, no Sindicato Rural de Londrina. Ele afirma ainda que a recuperação do investimento não passa de 27 meses.

Todos os números são relativos à produção em estufa, em um hectare. Para o mirtilo, a expectativa é de que a planta tenha vida útil de 14 anos, período no qual a receita bruta somada será de R$ 792,2 mil. O preço base por quilo do produto usado para o cálculo é de R$ 4, para venda do produtor.

Para o morango, a expectativa é de receita de R$ 240 mil em oito meses, com um valor mínimo por quilo de R$ 2,50. A framboesa e a amora têm a mesma composição, com R$ 850 mil para o período de dez anos de vida útil da planta. Já o physalis chega a R$ 437 mil para oito meses, com valor por quilo mais alto, de R$ 25.

Rubiano afirma que uma pessoa consegue cuidar de até 15 mil plantas de morango em uma estufa de 2 mil metros quadrados (m²), com uma produção mínima de 400 g por planta no primeiro ano, que passa facilmente de 1 kg ao longo do tempo. "São entre 15 e 30 toneladas em três anos e a estimativa de vida da planta é de oito meses, mas pode chegar a três anos", diz.

No caso das amoras, ele cita que não é necessária mão de obra muito superior à do morango para o manejo diário, mas ao menos 15 pares de mãos para o período de colheita, em um hectare. "Por isso, pensamos nessa divisão em várias culturas, com um espaço menor para cada, para que o agricultor veja a quais ele se adapta melhor e para que possa ter renda em vários períodos do ano", explica Rubiano.

O agrônomo considera que um polo frutícola somente de amora, com 40 hectares, tem capacidade de gerar 400 toneladas da fruta e uma receita de R$ 2 milhões ao ano. A movimentação, contudo, pode ser maior por meio da agroindústria. "Se produzir apenas o suco natural, seriam 325 mil litros em um ano, com a possibilidade de vender 300 ml a R$ 4. Faça as contas", afirma ele sobre uma rentabilidade que passaria dos R$ 4,3 milhões. (F.G.)

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