O potencial da indústria florestal
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de novembro de 1997
Cristina Côrtes 
Fotos: ArquivoO reflorestamento ganhou novo impulso com a implantação do SerflorQuando o assunto é floresta, a primeira idéia que nos vem é de preservação e ecologia. O músico e poeta Tom Jobim já cantava em prosa e versos sua visão romântica da floresta ...deixa o mato crescer em paz... na música Borzeguim. Mas, tratar as matas nativas como um bem intocável, pode apressar sua destruição ao invés de protegê-las.
Este é o pensamento de pesquisadores de várias instituições que trabalham e estudam nossas florestas, com o objetivo de assegurar sua proteção com a exploração planejada e com a reposição de determinadas espécies que têm seu cultivo viável em monoculturas.
Para o engenheiro Sebastião Renato Valverde, que está fazendo doutorado em Economia Florestal, na Universidade Federal de Viçosa, o setor florestal tem dado ao longo dos anos uma importante contribuição à economia brasileira. E diante do grande potencial florestal que o Brasil possui, o pesquisador propõe um fortalecimento e apoio à indústria florestal, como forma de solucionar problemas estruturais como a balança comercial, o desemprego, a reforma agrária, o investimento, a distribuição de renda e a arrecadação.
Qualidade de vidaPaíses como o Canadá, Suécia, Finlândia e Noruega, que têm suas economias sustentadas pela indústria florestal, foram apontados como tendo os melhores índices de qualidade de vida, conforme relatório da ONU. Partindo deste ponto, Valverde pesquisou e comparou, através de simulações, os resultados da exploração florestal e de outros segmentos da economia.
O pinus, juntamente com o eucalipto, são as espécies mais plantadas comercialmente
Confrontada com mais de vinte setores, a indústria florestal foi destacada pelo maior retorno, considerando as características e afinidades do País. Nossa competitividade não está na área de indústrias como a mecânica, química, veículos, eletro-eletrônica, diz Valverde. Enquanto levamos sete anos para cortar áreas reflorestadas num ótimo volume, outros países levam 40 anos para fazer seu primeiro corte.
Outro aspecto muito importante, mais precisamente para as economias em desenvolvimento, é que o setor florestal remunera tanta a mão-de-obra urbana quanto a rural. Com exceção da agroindústria (na qual o setor se insere), nenhuma outra indústria teria essa peculiaridade, seja ela de bens de capital, bens duráveis, não-duráveis, ou de serviços, explica.
CompetitividadeOs produtos florestais contribuíram com US$418 milhões na economia global em 1991. Deste total US$98 bilhões representaram as exportações, ou seja, 3% do comércio mundial. Estima-se que o setor emprega 60 milhões de pessoas, 80% em países em desenvolvimento.
No Brasil, o setor florestal contribui com US$16,5 bilhões no PIB. O País tem hoje cerca de 4,6 milhões de hectares de florestas plantadas e 3 milhões de hectares de florestas nativas com planos de manejo, que geram em torno de 700 mil empregos diretos e 2 milhões de empregos indiretos.
O maior volume de madeiras é consumido como lenha, mas o maior valor agregado é das espécies para serrarias
No estudo, Valverde fez simulações com oito setores da economia: agricultura, mineração, siderurgia, máquinas e equipamentos, madeira e mobiliário, celulose e papel, química, têxteis e vestuários. A escolha destes segmentos foi considerada com base na indústria florestal e nos setores onde a exportação tem valores significativos, para poder avaliar os impactos na produção, importação e absorção de mão-de-obra.
O propósito do trabalho foi avaliar as possíveis consequências de uma eventual política de promoção das exportações, com o objetivo de verificar os impactos na produção total, setorial, nas importações e na absorção de mão-de-obra. Também foram observados os efeitos para trás e para frente.
O corte nas matas virgens deve ser seletivo para não prejudicar outras espécies
Utilizando-se os dados da matriz de insumo-produto de 1990, do IBGE, observou-se que os setores de Siderurgia e Celulose e Papel apresentaram os maiores aumentos na produção total, com o aumento na exportação, enquanto os setores Química, Máquinas e Equipamentos apresentam pequeno aumento na produção, grandes aumentos no item importação e menor absorção de mão-de-obra. Os setores Agricultura e Madeira e Mobiliário foram os que apresentaram os menores aumentos na produção, talvez devido ao baixo valor agregado, porém apresentaram as maiores taxas de emprego e as menores importações.
CustosNo Paraná o custo de implantação de um hectare de eucalipto ou pinus está em torno de R$450,00 nas condições da região de Paranavaí, onde os dados foram levantados pelo engenheiro florestal da Emater, Erni Linberger. Para espécies nativas o custo é um pouco maior, R$600,00/ha.
Em apenas sete anos o produtor poderá estar colhendo 230 a 240 metros cúblicos de madeira, e receber em média R$8,00 a tonelada da madeira em pé. Segundo cálculos do técnico, depois de sete anos o lucro líquido pode ser de R$220,00/ha/ano, o que não é nada desprezível, considerando que o plantio é feito normalmente em áreas sem aproveitamento agrícola da propriedade.
A madeira tem liquidez e é uma poupanca que pode socorrer o produtor em momento difíceis, comenta Erni. Na região de Paranavaí existem atualmente 10 mil ha plantados, e a procura por mudas tem aumentado no último ano.


