O paradoxo rural - Luiz Hilton Temp
O paradoxo rural
Luiz Hilton Temp
O grave êxodo rural, principalmente dos pequenos agricultores, e a atuação do Movimento dos Sem-Terra apresentam uma nítida discrepância no Brasil de hoje. Enquanto muitos produtores rurais simplesmente abandonam a terra em busca da sobrevivência, outros lutam pela possibilidade de retorno à agricultura. O paradoxo força um exercício de raciocínio para podermos entender, quem sabe, a total abrangência da situação.
O sacrifício a que estão submetidos os agricultores, que sobrevivem com o trabalho familiar, é a causa ponderável do crescimento acentuado do êxodo rural. Há o problema do endividamento, do clima, os baixos preços dos
produtos agrícolas brasileiros, o pouco uso de tecnologia, o subsídio dos
produtos de países exportadores e, mais ainda, o fator cultural dos
pequenos agricultores brasileiros. Os integrantes do Movimento Sem Terra não são diferentes de nenhum outro pequeno agricultor familiar brasileiro, pois todos convivem com os mesmos problemas. Ressalta-se, também, o
fato de que nenhum sem-terra quer mais do que alguns poucos hectares de solo para produzir seu sustento, não mais do que dispõem os agricultores familiares.
Os agricultores sem terra, originalmente, são os que, mesmo acostumados à lida agrícola, nunca tiveram terra ou a perderam pelos mais diversos
motivos. Uma destas razões pode estar na inadimplência perante as
instituições bancárias. Note-se até que os sem-terra voltam sua
atenção para as regiões de pequenos agricultores. Os agricultores, com o êxodo rural, deixam para trás estas mesmas regiões, abandonando o campo e a agricultura em busca de nova vida em áreas mais industrializadas.
Existem, entretanto, algumas formas para tentar, ao menos, explicar este aparente contra-senso de pequenos agricultores familiares e os sem-terra.
Os pequenos agricultores não tiveram opção. Ninguém, em nenhum
momento, lhes deu outra escolha, a não ser a agricultura. Nasceram na
roça, sempre trabalharam lá e tiveram pouca ou nenhuma instrução. A
mão-de-obra dos filhos de agricultores também sempre foi muito utilizada, mesmo que com pouco preparo ou vocação. Paralelamente a isto, a terra
sempre deu condições de vida a estas famílias sem que precisassem alterar profundamente as atividades comumente desenvolvidas. Agora é diferente. A mudança veio ... e exigente, todos vivemos realmente na chamada aldeia global. Não há mais distâncias nem divisões.
Os problemas acentuaram-se e exigem profundas mudanças, mesmo no comportamento dos que sempre tiraram, da mesma forma, o sustento da
terra. Os governos e os mais diversos organismos ligados à agricultura vêm, ao longo do tempo, adotando ações para evitar e minimizar os efeitos dessas mudanças sobre os agricultores. Essas iniciativas, é bem verdade,
sucumbem, invariavelmente, por serem isoladas, produzindo poucos
resultados positivos. Outro fator relevante é a resistência dos pequenos
agricultores a aceitarem a readequação às necessidades atuais, o que
denota claramente os problemas culturais. Mas a incerteza não pára por aí. Existe tecnologia, hoje em dia, em abundância. A aplicação total dessas
técnicas igualmente levaria o pequeno agricultor à falência. Não há
planejamento de parte de governos e tampouco de agricultores.
Os governos também não têm sabido aplicar corretamente os já poucos recursos que despendem na agricultura. Não estavam preparados para uma realidade tão dura. Para enfrentar a globalização, teriam de criar alguns mecanismos, bem como inserir novos textos legais no setor agrícola, o que não fizeram. As iniciativas governamentais, na maioria das vezes, não
passaram de ações com interesses políticos, para não dizer coisa pior.
Os integrantes do Movimento Sem Terra, por outro lado, já viveram o
dia-a-dia da agricultura e as dificuldades dos setores urbanos, até porque o abandono do campo foi uma imposição. A atuação do movimento é a opção que seus seguidores fazem na busca da terra.
A importância do MST baseia-se no seu alto grau de organização. Os sem-terra discutem no grupo o que tem relevância na sua atuação. Este contato, baseado nas necessidades coletivas, obriga o desenvolvimento do raciocínio e da articulação, proporcionando, sem dúvida, o crescimento cultural, doutrinário ou não. É verdade também que os sem-terra dispõem de tempo livre para esta complementação, aspecto que a maioria dos pequenos
agricultores não vislumbra. Existe planejamento, ação conjunta e
determinação. Um ponto fundamental é o fato de que os sem-terra,
justificadamente ou não, recebem mais atenções do governo Federal do que os pequenos agricultores familiares. O mesmo acontece na mídia, que o
MST consegue sensibilizar e aproveita sempre os generosos espaços
recebidos. Por seu lado, os pequenos agricultores registram enormes
dificuldades no que se refere aos setores ligados à comunicação.
Evidentemente que existe o aspecto político. Mesmo a política é utilizada pelos sem-terra de forma a render dividendos favoráveis ao movimento.
Enquanto os pequenos agricultores, em sua maioria, possuem tímida e
pulverizada ideologia política, os integrantes do MST organizam-se quase completamente ao redor da mesma crença político-partidária. Os
problemas dos pequenos agricultores apresentam-se como extremamente complexos e, até agora, de difícil solução. Quanto ao MST, resta saber se, depois de plenamente reassentados, os sem-terra terão condições de
mostrar a mesma organização e vocação no trabalho agrícola.
O autor é presidente da Federação das Cooperativas Agropecuárias de Santa Catarina -Fecoagro/SC.





