O padre, o cachorro e eu

Foi numa de minhas férias lá no sítio de meus tios no Cruzeiro do Sul. Década de setenta.
Eu tinha uns doze anos. Depois de chegar, conversar e passear pra todo canto com os meus familiares, minha tia, muito religiosa, disse:- Amanhã é domingo e vai ter missa na igrejinha. Acordamos cedo e fomos todos nós. A igrejinha era uma capela e me pareceu que não era sempre que tinha missa ali. Entrou um padre já velhinho, daqueles que já havia rezado muita missa de costas e falado muitas orações em latim no altar. E lá se tinham ido apenas uns quinze anos do Concílio Vaticano Segundo e suas novidades. A igrejinha encheu de gente. Se me parece,o padre não era dali. E o povo de Deus era de todo lugar.
A missa estava no meio e entrou um cachorro no corredor central. Andou pra lá, andou pra cá. E o padre de olho no cachorro. E o pessoal percebendo que o cachorro estava à vontade, mas o padre não, pensando talvez que lugar de cachorro não era dentro da igreja e sendo uma criação de Deus também, mas, carecendo de juízo e entendimento pelas coisas divinas, o seu dono devia tirá-lo dali, porque igreja não era lugar de cachorro. Mas nada. Ninguém se movia. E o padre com um ar de insatisfeito pela atitude irreverente do cachorro. E a minha concentração já não era mais na missa, e das outras pessoas também. Era o cachorro.
De um lado o padre, do outro o cachorro agora andando pra lá e pra cá. E a minha expectativa era pelo que poderia acontecer. Fiquei pensando que talvez o cachorro subisse no altar, ou mordesse alguém, ou atrapalhasse na hora da oração eucarística, ou mesmo que fizesse qualquer sujeira. E ninguém fazia nada. E o dono do cachorro não aparecia, se é que tinha dono.
Nunca gostei de deixar as coisas acontecerem se posso fazer algo para evitar. E pensando nisso, tomei uma decisão: pegar o cachorro e levar pra fora da igreja. Levantei do meu lugar com bastante respeito e evitando chamar atenção aproveitando o momento em que todos se levantaram pra escutar o Evangelho. Minha movimentação foi rápida, mas tranquila. Levei o cachorro pra fora da porta da igreja e que acabou ficando por lá mesmo. Até hoje não sei por que ele não entrou de novo, afinal, poderia ter acontecido isso.
Pensei que agora poderia prestar atenção na missa quando, não contente com o cachorro lá fora, o padre ainda incomodado com o animal aproveita o mote e faz o cachorro parte da homilia e dando uma severo sermão para o dono do cachorro que ali tinha ficado. Mas o pior não era isso, mas sim que ele achou que eu, por ter levado o cachorro pra fora da igreja seria o dono do animal. Fiquei um pouco constrangido, mas a sensação de poder ter feito algo que considerei certo me deu muito mais satisfação do que o mal entendido do padre.
É claro que depois meus irmãos e meus primos se divertiram muito às minhas custas na saída da missa e na hora do almoço com a história. No dia fiquei meio envergonhado mas levei na brincadeira e, como disse, achei que fiz o certo enquanto todos ficaram esperando ver o que acontecia.
Hoje, quando me lembro dessa história penso que o importante foi não ter ficado sem ter feito algo. E isso me dá uma sensação de imensa satisfação.
Mas que foi engraçado foi.
DAILTON MARTINS é leitor da FOLHA





