O Natal na minha infância
A chuva faz bem para todo mundo: para o campo, plantações, árvores, flores, animais e também para as pessoas. Mas, o que fazer com dez crianças de 0 a 13 anos dentro de casa com um tempo desses? Ah, mas a mamãe sabia. Ela não nos deixava sair, porém arrumava atividades para nós. Comprava sacos, abria, alvejava, desfiava as pontas e nos ensinava a amarrar toalhas; panos riscados e linhas para bordar. Aprendemos a bordar ponto atrás, ponto sombra, ponto cheio, ponto cruz, pé-de-galinha, até os meninos bordavam. Ela também lia gibis e contava histórias para nós.
Às vezes, ansiosos, corríamos até a janela, de pé ou ajoelhados na cama, de rosto grudado no vidro, víamos a chuva cair e rezávamos para ela parar logo. E quando parava... parecíamos aquele passarinho que preso em sua gaiola, vê alguém abrindo a porta e voa correndo para a liberdade. A essa altura, alguns dos meninos já tinham em suas mãos, barquinhos feitos de papel que colocavam na enxurrada da rua e íamos acompanhando para ver até onde iam; alguns se desmanchavam pelo caminho.
Na época de Natal, que alegria! Todos nós pedíamos presente. Mamãe pedia para que cada um escrevesse a sua cartinha para o Papai Noel e eu escrevia para os pequenos que ainda não estavam na escola. Na noite da véspera do Natal, colocávamos a nossa melhor roupa - "a roupa de ver Deus" - íamos à igreja, assistíamos à Missa do Galo e voltávamos depressa para casa, para dormir logo e acordar bem cedo para recebermos o presente.

Não me lembro de termos árvore de Natal, ceia de Natal, quando criança; mas me lembro de alguns presentes que ganhei: uma boneca que anda, uma boneca vestida de noiva e jogos de pires, xícaras, bule, panelinha, pratinho, garfo, colher. Adorei esses presentes porque quando brincava de casinha, os pedaços de prato e xícara que quebravam na cozinha eram as nossas louças.
Lembro-me de um Natal em que o Idivar tinha pedido uma bicicleta para o Papai Noel; quando acordou, não viu nada ao lado de sua cama. Ficou triste, nós o ajudamos a procurar por toda parte, no quintal, nos armazéns e nada. Todas as crianças com seus brinquedos na rua, e ele sem nada para mostrar. E assim passou o dia, amuado num canto. De tardezinha, alguém teve a ideia de ir procurar no escritório do papai. E não é que a bendita da bicicleta estava lá? Nossa, nem dá para descrever a alegria do meu irmão.
No Natal seguinte, acordei durante a noite, vi a mamãe colocando os presentes na cama de cada um e eu me escondi. Não sei o que senti no momento, acho que primeiro foi surpresa, depois decepção, porque eu queria que os meus irmãos tivessem a ilusão de que o Papai Noel existe. É tão bom sonhar! Depois disso, todos os anos eu ajudava a mamãe a colocar os presentes; mas eu falava que era o Menino Jesus que trazia. Eu tinha 12 anos e no ano seguinte, fui para o internato estudar num colégio de freiras, em Agudos (SP).
Idiméia de Castro, leitora da FOLHA.





