Imagem ilustrativa da imagem O meu pé de manga rosa


Sem querer parodiar a obra de José Mauro de Vasconcelos, o livro O meu pé de Laranja lima, visto que não havia sido publicado, e eu o li depois e gostei, lembro-me de ter uma árvore de estimação. Com ela eu só faltava conversar, mas não era uma fantasia e sim, um lugar gostoso, um refúgio na minha infância,além de fornecer suas frutas saborosas.

No quintal havia muitas árvores e até outras mangueiras mas aquela era especial. Era alta, frondosa, troncos grossos os quais eu escalava com grande facilidade. Lá no alto eu colocara uma tábua, pregando bem. Ela servia de mesa onde eu deixava os livros, revistas, comida e pasmem...uma latinha com bitucas de cigarros. Minhas vizinhas fumavam e quando pediam para as crianças irem comprar cigarros... pasmem mais uma vez, nos davam bitucas. Mas a gente levava na brincadeira e raramente experimentávamos com medo de apanhar. Ainda bem! Na mangueira também tínhamos um balanço de corda onde ficávamos muito tempo pendurados e balançando até escurecer ou então saíamos para outras brincadeiras. Às vezes, para variar, subíamos na mangueira usando a corda do balanço imitando o Tarzan ou os macacos.

Mas por que será que a gente gostava tanto da mangueira? Além de produzir lindas mangas, ela era especial. O pé carregadinho, os galhos se estendiam quase até o chão, quando as mangas começavam a crescer, a gente costumava "marcar" com uma mordida, dizendo: essa vai ser minha! A manga ia crescendo e se regenerava e a gente nem lembrava mais da marca.

O melhor de tudo, no entanto, estava na visão que se tinha lá de cima. Dava para ver as casas dos vizinhos e ouvir suas conversas, o vaivém das donas de casa em seus trabalhos diários. Podia ver parte da praça, os carros de aluguel, os pontos de ônibus. Até sabia os horários dos ônibus da Viação Carreira que fazia a linha Paranacity-Londrina, ou a Andorinha que ia para Maringá. E reconhecia as pessoas que chegavam ou embarcavam em frente a Loja do Seu Agostinho ou do Bar. Quando chovia, costumava informar se os ônibus estavam circulando ou não...Meu pé de manga era um verdadeiro observatório!

Ficava de olho na casa para ver quem chegava trazendo roupas para costurar ou simplesmente visitar. Se eu fosse com a cara da pessoa, descia imediatamente para bisbilhotar , caso contrário ficava lá mesmo.

A mangueira era o lugar preferido para estudar e brincar. Do alto de seus galhos eu observava o pequeno grande mundo à minha volta. Cantava, ria, brincava e sonhava com a felicidade que um dia eu encontraria sem saber o quanto era feliz naquele tempo...e não sabia.

ESTELA MARIA FREDERICO FERREIRA, leitora da FOLHA

mockup