Os canários são os preferidos na produção de aves doméstica no País, setor que reúne milhares de criadores
Os canários são os preferidos na produção de aves doméstica no País, setor que reúne milhares de criadores



Eles são belos, enchem os olhos com suas cores múltiplas, cantoria, trazem alegria a qualquer ambiente e – mais do que isso – conseguem mesclar hobby, competição e negócio para muitos criadores, tudo numa mesma atividade. O fato é um só: quem ingressa no mundo dos canários se apaixona e não vive mais sem eles.

O leitor que não está ambientado ao assunto vai se surpreender com o profissionalismo da criação dessas aves domésticas no País. Na região de Londrina tem até criador desenvolvendo nova raça. Pessoas das mais diferentes classes sociais, profissões e idades se debruçam dia a dia no cuidado e manejo dos seus "pequenos tesouros", participando de competições, melhorando a genética, criando novas raças, comercializando aves e agregando família e amigos em cima da atividade.

Neste mês de julho, a força da atividade foi mostrada no 65º Campeonato Brasileiro de Ornitologia Amadora, que aconteceu em Itatiba (SP), na sede da Federação Ornitológica do Brasil (FOB), considerada o maior centro ornitológico do mundo. Numa área de 25,5 mil m², são dois pavilhões para exposições, totalizando 21 mil m² de área construída.

Imagem ilustrativa da imagem O maravilhoso mundo dos canários
| Foto: Fotos: Marcos Zanutto



Foram inscritas 23 mil aves na competição, sendo que 19 mil eram canários. No total, são 4.500 criadores de aves domésticas filiados à FOB, sendo que 70% deles focam na espécie. No Brasil, são mais de 170 clubes ligados à Federação, 24 deles no Paraná.

Hoje, no País, os criadores focam nas categorias cor e porte. Na cor são mais de 600 variedades, que vão desde os mais consagrados no mercado como branco, amarelo e vermelho, até raças geneticamente desenvolvidas recentemente, como canela magno. No porte, há também muitas raças como Gloster, Crest, Frisado Parisiense, Fife, York, Espanhola, Topete Alemão, entre tantas outras.

O presidente da Sociedade Ornitológica Londrinense (SOL), Newton Eskelsen Felício, relata que o Brasil segue agora uma tendência da criação de canários que acontece na Europa há muito tempo. Nos últimos cinco anos, os criadores nacionais estão deixando a questão de volume de pássaros e se dedicando à qualidade e genética dos animais. "Ainda somos considerados pelos europeus 'latifundiários' dos pássaros. Agora, estamos deixando estruturas grandes e trabalhado em espaços reduzidos. Menos canários e mais resultados".

A ideia, segundo Eskelsen é investir em boas matrizes, se especializar numa cor ou porte específico e conquistar bons resultados nos campeonatos, que são muito disputados. "Depois que o criador conquista os resultados, ele pode tornar seu negócio rentável e vai formando seu nome dentro do meio. Um canário pode passar a valer R$ 800 e ter uma demanda excelente de outros criadores".

Os canários que nasceram, por exemplo, em 2016, participaram dos campeonatos deste ano e já não competem em 2018. Após as competições de julho – momento que eles estão com as melhores plumagens pré-período reprodutivo – inicia o processo de montagem dos casais e o período de reprodução vai até o início do ano. "É o momento de separar geneticamente o que é melhor, quais tiveram bons resultados e gerar filhotes de qualidade dentro do plantel. São quatro ciclos de reprodução no ano, com média de quatro filhotes cada um, que começa a partir de agosto".

Para o futuro, o criador enxerga uma evolução importante no País. "Temos um potencial enorme e cada vez mais os resultados estão aparecendo. Os criadores estão buscando mais informação, a evolução genética é nítida além de novas raças surgindo".

'Estigma da gaiola' precisa ser superado

O canário é uma ave considera doméstica e, diferentemente dos pássaros nativos e silvestres, não precisa ser regulamentado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). Ele já faz parte do ambiente familiar em todo o mundo há centenas de anos.

Mesmo assim, criadores que atuam no segmento concordam que ainda existe um estigma da população de que essas aves deveriam ser soltas, mesmo não tendo nenhuma chance de viver longe das gaiolas. "O problema que vejo com o canário e outras aves domésticas é esse estigma da gaiola, que as pessoas de forma geral acham que eles precisam viver livres. Essas aves não têm discernimento para voltar ao local de onde vieram, não sabem procurar comida, ficariam perdidas e seriam predadas por outras aves de rapina. É isso que o público da cidade ainda tem dificuldade de enxergar. As pessoas não entendem que um cão dentro de um apartamento também está preso, mas vive com qualidade", explica o criador de canários domésticos e juiz da Ordem Brasileira dos Juizes de Ornitologia (OBJO), João Basile.

O presidente da Sociedade Ornitológica Londrinense (SOL), Newton Eskelsen Felício, salienta que a falta de informação sobre esse tema ainda é muito grande. "Muitos acham que o canário tem a mesma regulamentação do animal silvestre e acha que é crime esse pássaro dentro da gaiola. São 600 gerações desse animal vivendo em gaiola, ele não consegue sobreviver fora. Além disso, diferentemente de espécies exóticas, o canário não tem capacidade para desequilibrar o meio ambiente, como acontece com alguns animais".

Com a atenção redobrada sobre as aves silvestres no País, o que é algo de suma importância, a expectativa é que o canário acabe sendo fundamental para preencher essa lacuna do desejo das pessoas em criar aves em casa. "O canário tem uma quantidade incrível de cores e formas e muitas pessoas poderiam criá-los ao invés das aves silvestres. Temos que deixar claro que se trata de um animal doméstico, como um cachorro ou um gato", complementa Basile.

mockup