O Iapar e o agribusiness do futuro
Paulo Varela Sendin
Se consegui ver mais longe que outros homens, é porque subi nos ombros de gigantes.(Isaac Newton)
No próximo dia 29 de junho o Iapar completa 25 anos de existência. Como seria de se esperar, ao atingir essa idade ‘‘madura’’, a instituição passa por um período de questionamento.
Durante esses anos o ambiente externo mudou, alterou-se o cenário político estadual e nacional; as pessoas que constituíam o Iapar da década de 70 não são as mesmas ou não têm a mesma percepção da vida. Dentro deste contexto de mudança, no entanto, algumas coisas permanecem, pois constituem-se no fundamento do processo de criação do conhecimento científico e tecnológico.
Um desses fundamentos, frequentemente esquecido por políticos imediatistas e pela própria Sociedade, é o caráter cumulativo do processo de geração de inovações tecnológicas.
Em seus primeiros anos de atividade o Iapar proporcionou soluções tecnológicas ao Paraná através da sistematização e adaptação de conhecimentos já disponíveis. Ou seja, apropriou-se das informações da literatura técnica e da experiência de seus pesquisadores, para atender a demanda tecnológica da agricultura paranaense.
Ao mesmo tempo, dedicou-se ao aperfeiçoamento de seus quadros e à busca de novos conhecimentos, não para a agricultura da década de 70 mas para os anos seguintes.
Esse processo paralelo de aplicação do conhecimento disponível aos problemas atuais e, concomitantemente, desenvolvimento de novos conhecimentos, é que permite a uma instituição de pesquisa estar permanentemente preparada para enfrentar novos desafios.
Por outro lado, o adequado balanceamento entre o atendimento ao presente e a preparação para o futuro é um ato de equilibrismo organizacional frequentemente arriscado.
A excessiva concentração no futuro desvincula a entidade de pesquisa da Sociedade e pode alienar seus técnicos da realidade, inviabilizando sua sobrevivência. Esse caminho é muitas vezes trilhado em decorrência de um corporativismo excessivo e de uma sensação de auto-suficiência.
No lado oposto, as demandas imediatistas podem levar a instituição a atender rápida e eficientemente problemas atuais, tendo com isso até mesmo retornos políticos e pleno reconhecimento da Sociedade. A convivência com essa situação por um razoável período é contraproducente a longo prazo. Ao praticar esse ‘‘extrativismo institucional’’, descurando-se da renovação de quadros, da permanente capacitação e da dedicação a objetivos estratégicos voltados para o futuro, a organização de pequisa torna-se uma mera prestadora de serviços técnicos e, consequentemente, perde até mesmo a competência para prestar esses serviços.
Nesse contexto o Iapar acha-se realmente num momento de questionamento.
Suas reservas de conhecimento, construídas pela atividade de seu quadro de funcionários durante os últimos 25 anos, passa por uma fase de uso sem reposição. Nos próximos 10 ou 15 anos a maior parte de seu quadro estará se aposentando e não há uma previsão quanto à incorporação programada de substitutos. Ao mesmo tempo, a demanda por soluções imediatistas e até mesmo por atividades periféricas à geração de conhecimento é crescente, o que reduz a dedicação ao desenvolvimento de pesquisas visando o médio e longo prazos.
Chegou-se assim a uma encruzilhada em que ainda são colhidos os frutos do que foi plantado no passado, mas reduz-se cada vez mais a semeadura para as colheitas do futuro.
É preciso, então, refletir sobre quê Iapar a Sociedade deseja. Um ainda eficaz no curto prazo, atendendo as demandas do dia-a-dia ou um Iapar capaz de desenvolver conhecimento para o agribusiness do futuro? Embora as duas ações não sejam excludentes, há que se definir o adequado balanceamento entre elas.
Para isso é imprescindível a conscientização, pela Sociedade, sobre o que o Iapar já contribuiu no passado, vem contribuindo no presente e é capaz de contribuir no futuro. E é necessário que esse reconhecimento seja transformado em adequadas condições de trabalho e não só em ‘‘parabéns pelo aniversário’’.
Esse reconhecimento é fundamental. Porém, não basta. A instituição precisa repensar sua missão, seus objetivos, sua estrutura e, principalmente, seu futuro. E tudo isso, obviamente, com a participação da Sociedade.
Para viabilizar esse processo de redirecionamento estratégico torna-se necessária a mudança do modelo organizacional. E, qualquer que seja o modelo, há que se garantir autonomia com responsabilidade, bem como transparência de seus sistemas internos de gestão, no que se refere à programação, orçamento e custos, de modo que a Sociedade possa ser um agente desse processo e não apenas expectadora interessada e desinformada.
Com essas mudanças ter-se-á realmente um Iapar capaz de gerar novos conhecimentos com base no que já existe e no que desenvolver internamente. E, gerando novos conhecimentos, ajudar a construir, dia-a-dia, o agronegócio paranaense do futuro, como já veio fazendo ao longo de seus 25 anos de existência.
O autor é engenheiro agrônomo, técnico em Administração de Pesquisa do Iapar e Diretor Administrativo da Apeagro.

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