O homem moderno é um primata transgênico evoluído
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sexta-feira, 07 de julho de 2006
Célia Guerra<br> Reportagem Local 
Herbert Bartz, 69 anos, de Rolândia, é o responsável pela entrada no Brasil, em 1972, do Sistema de Plantio Direto. Graças à sua iniciativa, com o apoio da pesquisa oficial, o plantio direto ocupa, hoje, 23 milhões de hectares no País, contribuindo para a sustentabilidade da agricultura.
''Fui o primeiro, em 72'', relembra, ''seguido pelos japoneses, que me visitaram em 74, e, depois deles, só em 76 o pessoal de Ponta Grossa levantou a bandeira''. ''Na esteira desse movimento surgiu a organização de um sistema de cooperativas, que permitiu a expansão do plantio direto'', complementa.
Bartz nasceu em Rio do Sul (SC) e com apenas um ano voltou para a Alemanha com os pais. Na época, o que era para ser uma visita provisória, com o início da Segunda Guerra virou impossibilidade de sair do país. ''Perdemos tudo o que havíamos construído no Brasil.'' Além dos horrores da guerra, ele registrou muita fome, sofrimento e pobreza. Isso, para ele, é o marco de ''uma relação muito especial'' com a terra e a sua capacidade de produção de alimentos.
Depois da guerra o pai voltou para o Brasil e comprou a propriedade de Rolândia. Bartz havia ficado por lá, onde estudava engenharia hidráulica na Universidade de Achen cidade histórica da Europa. O pai lhe pediu que parasse os estudos e, como brasileiro, trouxesse a família para cá.
Já no Brasil, em um momento de angústia, de impotência, na tentativa de melhorar os cuidados da terra, decidiu-se pelo plantio direto. ''No sistema convencional, se falta chuva a planta sofre. Se chove, a erosão carrega tudo'', resume. As primeiras informações lhe foram repassadas por pesquisadores ligados a uma antiga instituição de pesquisa o Ipeama (antecessor do Iapar, segundo Bartz), sobre experiências desenvolvidas nos Estados Unidos. E foi de lá que, em 1972, o produtor trouxe não só a prática mas também uma plantadeira apropriada ao sistema.
Satisfeito com o que viu, ele se programava para iniciar o plantio direto em 20% da propriedade logo após o plantio de inverno. Mas os planos mudaram. Uma forte geada ''torrou'' toda a lavoura de trigo. ''Fiquei apenas com as dívidas'', recorda. ''Tive de fechar o olhos e fazer 100% de plantio direto, não tinha como voltar atrás''. A plantadeira americana foi o que sobrou, além da ''sorte'' de ter um estoque de sementes.
Depois da colheita, em 1973, toda a produção da soja que acabara de vender para uma empresa de Cambé foi embargada pela Polícia Federal a pedido de uma associação ligada ao setor. O argumento era de que a soja de plantio direto representava um sério risco para a saúde humana. ''Disseram que tinham todos os elementos para comprovar esses malefícios'', relembra com boas gargalhadas.
A defesa do plantio direto rende ainda outras histórias engraçadas. Bartz recorda o lançamento de um programa estadual para a construção de ''murunduns'', ou curvas de nível mais elevadas, pois o tamanho usado na época não dava mais conta de segurar a água. ''Pediram a minha opinião sobre o projeto, e eu disse, então, que uma curva de três metros nada mais era do que cumprir a prevalência da força sobre a inteligência o que não se tem na cabeça tem de ter no braço''. ''Quase fui preso por desacato à autoridade'', brinca.
Outro momento ''crítico'', segundo Bartz, foi em 1994, quando já se registravam vários avanços. Houve um simpósio sobre plantio direto no qual alguns técnicos concluíram que o sistema não iria pegar no Norte do Estado. A justificativa era que, apesar de um solo muito fértil, mas muito argiloso, se compactaria com muita facilidade. ''Pediram para eu comentar essa sentença oficial. Concordei que a compactação era um problema, mas devíamos constatar que a pesquisa elaborara soluções com recursos naturais, como a cobertura verde, rotação de culturas que preveniam ou curavam o problema'', recorda.
Na conclusão, entretanto, Bartz não poupou críticas à tal sentença: ''concordei com os organizadores de que a compactação é um problema muito sério... Mas, para mim, somente quando atinge o cérebro humano. Até hoje não fui perdoado'', diverte-se.
A primeira e grande resistência ao PD, recorda o pioneiro, saiu da pesquisa e dos agrônomos: ''A iniciativa não era deles e, depois, alterava todos os princípios básicos, a ortodoxia da agronomia'', avalia. Bartz aponta outra razão de a pesquisa ser ''emocionalmente'' contra: ''O PD veio da base. A pesquisa correu atrás para dar sustentação'', alfineta.
Atento à evolução do sistema, o pioneiro Herbert Bartz, destaca: ''O princípio nós pegamos dos americanos, mas o sistema deles ficou frio e técnico e o brasileiro adotou alguns ingredientes que eu chamaria de 'biodiversidade mental dos brasileiros'''. De uma certa maneira, completa, essa ''fertilidade mental'', nasceu da necessidade do agricultor brasileiro de achar um meio de sobreviver sem subsídios.
Entre as inovações, Bartz cita o plantio direto na palha. ''Hoje, nosso sistema sem palha, sem cobertura, sem proteção natural, não vinga.'' Nesse contexto, Bartz prefere considerar como o mais significante feito da pesquisa brasileira o desenvolvimento da tecnologia de plantio direto para a pequena propriedade. ''Isso deixou o mundo admirado.''
Entre as evoluções da agricultura, Bartz volta novamente à questão dos transgênicos, citando um fato ocorrido em São Paulo quando lhe pediram que opinasse a respeito. Com a humildade que lhe é peculiar, diz que não é pesquisador, não tem bagagem ou qualificação para tratar o assunto, mas relebra que numa de suas viagens à Africa, teve a oportunidade de ver a ossada de Lucy a mulher considerada o marco no pulo dos primatas para o homo sapiens , e conclui que, para ele, ''o homem de hoje nada mais é que o resultado final de uma sequência de mutações realizadas pela natureza, como faz o homem com a transgenia. O homem moderno é um primata transgênico evoluído''.
Para concluir, Bartz afirma que não entende a agricultura como uma atividade penosa e sofrida. ''Para mim, especialmente pelo plantio direto, é uma atividade nobre e permite toda a criatividade que uma mente humana é capaz de realizar''. A grande satisfação que tem, garante, é de ver que os dois filhos, cada um à sua maneira, carregam a mesma bandeira. ''Estamos convencidos de que somente com um sistema como o plantio direto é possível se fazer uma agricultura sustentável.''


