Temos tido a feliz oportunidade de testemunhar importantes vitórias técnicas e econômicas do movimento de agricultura orgânica no Brasil. Em quase duas décadas de observação, esse movimento passou de uma‘‘utopia bicho-grilo’’ para uma das maiores tendências no mercado de alimentos. Sem dúvida, em grande parte essa vitória deve ser creditada aos técnicos e agricultores que acreditaram nessa proposta, considerada sem a menor perspectiva no final dos anos 70.
Contudo, temos observado também, com certa apreensão, que a ampliação do mercado fez convergir sobre o movimento a atenção de novos atores. Além dos tradicionais agricultores, técnicos e consumidores ‘‘ideológicos’’, o cenário hoje inclui um número crescente de agentes interessados nas perspectivas econômicas do mercado orgânico.
Não há dúvida de que esse afluxo é positivo, e que reflete um sucesso em termos de divulgação social. Contudo, também tem trazido alguns riscos e novos desafios para o movimento. Dentre esses desafios, focalizamos nesse artigo a necessidade de readequação de nossas mesas, se realmente queremos uma alimentação sadia e nutritiva e uma agricultura ecologicamente correta.
Os hábitos alimentares tradicionais em qualquer região do Planeta se desenvolveram como resultado da combinação entre as necessidades nutricionais do homem e a oferta alimentar do ambiente local. Como regra, essa combinação foi se ajustando ao longo dos séculos, gerando padrões alimentares geograficamente diferenciados ao largo do Planeta. Embora diferenciados em termos dos produtos e das preparações, todos esses padrões alimentares foram capazes, a grosso modo, de prover o organismo humano de todos os nutrientes necessários ao seu pleno funcionamento. Em cada local, esses padrões variavam também ao longo do ano, de acordo com o ciclo das estações.
Com o desenvolvimento dos agrotóxicos, esses padrões diferenciados ao largo do espaço e ao longo do tempo sofreram profundas alterações. Expandiram-se as regiões e as épocas de cultivo de muitas espécies para condições até então impossíveis.
No caso do Brasil, particularmente, ocorreu uma espantosa expansão geográfica de culturas até então de limitada expressão nas dietas. A alface, restrita inicialmente ao inverno ou a regiões de temperatura mais amena, desbancou a couve e se tornou a folhosa mais consumida. O tomate, até então cultivado principalmente na estação mais seca e predominantemente como tempero, assumiu a posição de principal hortaliça no País. A batata-inglesa, na verdade andina, até então restrita aos planaltos do Sul e Sudeste, converteu-se na tuberosa de maior consumo fresco, em prejuízo de outras tuberosas mais rústicas, como o inhame, o taiá, a batata-doce, os carás e a mandioca.
Visto sob o prisma do acerto ecológico da alimentação, houve uma perda considerável. Em primeiro lugar, umas poucas culturas tomaram o lugar de muitas outras, reduzindo o colorido alimentar e gustativo e a base genética da agricultura. Houve também uma perda do valor nutritivo das dietas, porque os produtos cultivados fora das condições mais propícias normalmente são mais pobres do que os produzidos nas épocas e regiões mais favoráveis.
Hoje, atente bem, caro leitor: são já mais de 30 anos em que esse processo de mudança de hábitos vem acontecendo no sentido do ecologicamente incorreto. Atualmente, a dona-de-casa mais jovem vai ao mercado para comprar mais ou menos as mesmas coisas, durante todo o ano em quase todo o País. À parte alguns produtos regionais, de Norte a Sul, Leste a Oeste, compra a mesma sacola com tomates, alface e batatinha, 52 semanas por ano !!
Pois bem, e o que tem o movimento orgânico a ver com isso? Penso que tem muito a ver. É eticamente correto ficarmos agora explorando um nicho que certamente ajudamos a criar, mas que agora parecemos ter desistido de levar adiante? O sucesso futuro do mercado orgânico pode estar justamente nesse seu carater pedagógico, que rapidamente está se esgarçando.
Ao largo do País, temos acompanhado o esforço de um grande número de produtores orgânicos para produzir aquilo que o mercado lhes pede: os mesmos poucos produtos, ao longo do ano, em todo o Brasil. Fugindo da proposta declarada de seguir os ciclos da natureza e de fazer uma agricultura ecologicamente correta, estamos buscando mais e mais o artificial, correndo atrás de fórmulas mágicas em estufas plásticas.
Não nos demos conta de que a era dos agrotóxicos não influenciou apenas a produção agrícola, mas também e principalmente desenvolveu-nos hábitos alimentares incorretos e que hoje estão profundamente entranhados na população. Mas, de que modo um agricultor pode modificar os hábitos de consumo de seus consumidores? Não há respostas prontas. A questão está à espera de iniciativas criativas que certamente surgirão. Se fomos capazes de transformar uma utopia bicho grilo em realidade, podemos ser também capazes de recuperar cultivos e pratos que nos recoloquem naqueles ritmos próprios da região onde vivemos e nas canções próprias de cada estação. Ao nosso ver, é esse hoje o nosso desafio.
O autor é agrônomo e pesquisador do Iapar.

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