O futuro da avicultura brasileira
Hélio Schorr
O Brasil é o segundo maior exportador de carne de frango do mundo, atrás somente dos Estados Unidos. Este crescimento deu-se principalmente nas últimas duas décadas e sobretudo em razão da competência do setor produtivo brasileiro. Quando comparamos os parâmetros de produção dos principais países produtores, é fácil verificar porque a avicultura cresceu tanto e tão rapidamente.
Verifica-se neste gráfico de índices zootécnicos que o Brasil, Holanda e França, sob o ponto de vista de eficiência, são os países com melhores resultados, bem acima dos competidores emergentes (China e Tailândia).
O que torna o Brasil imbatível no mercado internacional são os custos de produção. Como pode ser verificado no quadro da comparação dos custos de produção, nenhum dos países relacionados tem custos competitivos com aqueles verificados no Brasil. Os Estados Unidos e China têm custos 9% maiores e são em termos de custos os competidores mais temíveis.
A Tailândia, apesar de custos 24,7% mais elevados que os do Brasil, está crescendo muito, principalmente por sua proximidade de mercados consumidores do Oriente. A França e a Holanda têm custos extremamente elevados, quase o dobro daqueles observados no Brasil e só se mantêm no mercado internacional graças ao subsídio dado aos produtores. Em algumas situações esses subsídios chegam a 85%, devido às barreiras alfandegárias aplicadas ao frango brasileiro no mercado internacional.
O subsídio americano à disposição chega a US$360 por tonelada de frango. Tivesse o Brasil condições semelhantes aos países da Europa ou dos Estados Unidos, com elevados subsídios à produção, ou se os subsídios daqueles países fossem retirados, seríamos certamente o País com a maior capacidade de abastecer os grandes mercados mundiais de carne de frango de excelente qualidade, e a custos baixos.
Apesar de todas essas barreiras, o Brasil exportou 569 mil toneladas, arrecadando US$840 milhões em 1996, e a perspectiva é de que em 1997 as exportações sejam superiores a um bilhão de dólares.
Ao Governo brasileiro cabe o desafio de externamente lutar contra os subsídios dos concorrentes e as barreiras do frango brasileiro no mercado internacional. Internamente, o Governo já prestará um grande serviço à avicultura, reduzindo ou extinguindo impostos como o PIS-Cofins, que nos últimos anos recolheu US$39 milhões do setor avícola nacional.
Para onde vamosApesar de uma boa experiência como executivo de empresas dedicadas à produção de alimentos, especialmente aqueles de origem animal, sou um recém-introduzido nos negócios da avicultura. Acredito que isto me permite uma análise adequada, e imparcial, dos principais aspectos da avicultura brasileira atual e os pontos que considero importantes na projeção do que deverá ser este negócio no futuro.
Alguns eventos ocorridos no mundo, nos últimos anos, alteraram completamente o relacionamento entre países e a geopolítica mundial. A queda do muro de Berlim, o agrupamento dos países em blocos econômicos e a globalização da Economia, criaram novos desafios para os países emergentes, especialmente para o Brasil. Nos novos tempos, caberá ao Brasil o papel de produção de alimentos e, sobretudo, de desenvolvimento de tecnologias que tornem o seu produto competitivo internacionalmente.
Os Estados Unidos, a Europa e o Japão, que para manterem sua produção agrícola competitiva cada vez mais subsidiam seus produtores, a cada ano que passa, perderão espaço no mercado mundial de alimentos, e terão que ter sua demanda suprida por aqueles países com vantagens comparativas, especialmente pelo Brasil.
O setor avícola brasileiro é, atualmente, um dos mais competentes do mundo. Empresas bem organizadas, técnicos preparados e sobretudo produtores dedicados, fazem da produção avícola brasileira um sucesso mundial. Sucesso comprovado pelas exportações que muito rapidamente superarão um bilhão de dólares por ano. Tecnicamente somos capazes de produzir frangos com os mesmos resultados obtidos pelos Estados Unidos, França, Holanda e em patamares muito superiores aqueles obtidos pela China e Tailândia. Sob o ponto de vista dos custos, somos o País com a maior vantagem. Nosso frango custa 10% menos que os frangos produzidos na China e nos Estados Unidos, 25% menos que o produzido na Tailândia, 90% menos que os produzidos na França e Holanda.
DesafiosSe o setor avícola é tão competente no presente, o que será preciso fazer para mantê-lo competitivo no futuro? A resposta é simples: atender as exigências do ‘‘consumidor politicamente ativo’’ existente nos mercados que se pretende suprir. Isto representa alguns desafios que parecem ser os seguintes:
1)manter-se tecnicamente competente, com índices de desempenho zootécnico superiores. A avicultura precisa adotar o conceito de que o importante é produzir ao menor custo e não com somente a melhor performance; 2) organizar e implantar imediatamente programas de higiene, controle sanitário e biosseguridade, sobretudo visando reduzir a incidência de salmonelas, staphylococcus, E. coli, listeria ou quaisquer outros agentes que possam ameaçar a saúde do consumidor; 3) preocupar-se com o ‘‘bem-estar’’ das aves, limitando a lotação por metro quadrado, a utilização de programas de iluminação artificial e outras práticas de manejo que interfiram em demasia no processo normal de desenvolvimento da espécie; 4estruturar-se para produzir frango sem utilização de subprodutos de origem animal na sua alimentação; 5)reduzir drasticamente a utilização de antibióticos e promotores de crescimento; 6)pesquisar a utilização de matérias-primas alternativas para alimentação e de aditivos alimentares como enzimas, probióticos, ácidos orgânicos, emulsificantes de gordura, etc; 7)implantar e seguir rigorosamente os preceitos de controle de riscos em pontos críticos (HACCP), não-somente nas indústrias, mas também a nível de produção de matéria-prima; 8)reduzir os impactos ambientais decorrentes da atividade. 9)Finalmente, superar todos os desafios anteriores, mantendo a vantagem de custos que temos sobre nossos concorrentes.
Conclusão:O Brasil é o país com as condições mais adequadas para suprir a demanda mundial de proteínas, especialmente de origem avícola. Para mantê-lo como tal, entretanto, é preciso sobretudo competência técnica. Isto só será possível com investimentos das universidades e das empresas, principalmente, na formação de técnicos gabaritados a vislumbrar, analisar e responder às demandas impostas pelos consumidores. Cada vez mais são os consumidores que estão com a palavra.
O autor, médico-veterinário, MsC em Economia Rural pela Purdue University, é gerente de Produção Animal da Copacol, de Cafelândia, PR.

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