O fino brasileiro sai em 1997
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de dezembro de 1996
Jota Oliveira 
Desde março deste ano uma comissão formada por todos os segmentos do negócio café procurou definir as bases para o café fino brasileiro, que será obtido a partir de um novo conceito de classificação baseado na qualidade e não nos defeitos da bebida como acontece agora.
A última reunião da comissão foi dia 9 deste mês, quando se definiram as normas indispensáveis de qualidade. O doutor em Agronomia, Aldir Ferreira, consultor da torrefadora italiana IllycaffS, que promove há seis anos um concurso para escolher os melhores cafés do Brasil, é o presidente da comissão. Ele disse à Folha Rural que o produto será mais próximo do tipo para spresso (expresso), tendo duas qualidades de bebida: uma mais suave, fina, a outra mais incorpada. Agora, o assunto vai para uma comissão técnica, da qual - entre outros órgãos científicos - participará o Instituto Tecnológico de Alimentos (Ital), de Campinas, SP. Essa comissão fará reuniões mais frequentes, para estabelecer uma estratégia que indicará o ponto de torragem, a temperatura e a moagem do produto. Até o final de 1997 poderá ser lançada uma campanha de divulgação, no Exterior, do café fino brasileiro.
Antes da divulgação, começará a fase de treinamento dos classificadores e degustadores, que aprenderão a trabalhar com amostras conforme as novas exigências que forem estabelecidas para o café fino.
Sem defeitos Ao contrário de agora, quando se admitem defeitos físicos até um limite máximo (12, no caso do concurso promovido pela IllycaffS) nas amostras, o café fino brasileiro não poderá ter um defeito sequer. Este café terá duas categorias: commoditie, para quem desejar adquirir mais volume; e gourmet, que será o café de qualidade, o fino de paladar.
Em geral, os melhores cafés do Brasil são produzidos no Sul de Minas e na antiga Mogiana paulista, devido a algumas condições, especialmente climáticas, existentes naquelas regiões, onde durante a colheita predomina o tempo quente e seco. Porém, no Paraná podem ocorrer condições favoráveis ao café fino. Aldir Ferreira explica que este café depende de uma série de condições: genética da planta, favorável à melhor qualidade; existência de nichos ecológicos climáticos e ecológicos; preparo do café. Se um desses elos se romper, você não terá essa qualidade, ressalva o técnico.
Para vender o café fino brasileiro lá fora, será preciso um investimento em promoção que mostrará aos americanos, por exemplo, que o Brasil tem produto da melhor qualidade. E o Governo também precisará assumir sua parte, oficializando as medidas específicas da nova classificação. Ferreira calcula que este café valerá mais US$ 5 a US$ 7 por saca, em relação ao preço internacional que o produto brasileiro obtém hoje.
Vala comum A comissão constituída por lideranças de todo o segmento café, da Economia brasileira, reuniu-se em março deste ano, pela primeira vez, para redefinir o conceito de qualidade do café, com o objetivo de determinar os aspectos positivos do produto. No Brasil, maior exportador mundial, segundo as regras do mercado a qualidade é definida pela análise dos defeitos do café.
A ausência de definição das qualidades positivas do café é responsável pela pequena diferença de preços entre cafés de xícaras distintas, diz o industrial italiano Ernesto Illy, presidente da torrefadora Illycaffé, de Trieste, que promove no Brasil o Prêmio Brasil de Qualidade do Café para Spresso, e autor da idéia de formar a comissão. O mercado praticamente põe no mesmo lugar os bons e os maus cafés (como o café de coador e o expresso), diz Illy.
Por sua vez, o agrônomo Aldir Alves Teixeira explica que aroma, corpo, sabor, acidez e amargor são algumas das características intrínsecas que precisam ser avaliadas. Em outros países produtores, como a Costa Rica, El Salvador, Colômbia, Guatemala e Etiópia, entre outros, o café é classificado pelos aspectos positivos, já que é preparado pela chamada via úmida; é despolpado e quase não apresenta defeitos. Nesses países os frutos são colhidos maduros e a sua polpa é retirada imediatamente, não havendo tempo para a atuação de microorganismos prejudiciais. São levadas em consideração, ainda, as diferentes regiões e a altitude onde é produzido o café.
No Brasil o café, apesar de sua excelente qualidade, é tradicionalmente preparado pela via seca, o chamado café-de-terreiro, que em geral é secado ao sol e que em muitas regiões apresenta características positivas de qualidade como aroma e corpo muito apreciados pelo mercado importador. Mas, em função do clima seco - acrescenta o agrônomo -, o fruto passa rapidamente de cereja a seco, o que dificulta a ação de microorganismos. O fruto então é preparado por inteiro e fica mais sujeito ao aparecimento de defeitos.
Produtividade com qualidade é hoje o único parâmetro para que se obtenha uma cafeicultura rentável, segundo Teixeira. Para ele, produtividade consegue-se com as técnicas certas de cultivo. O Brasil, que ainda sustenta o título de maior produtor mundial de café, tem produtividade média abaixo de 15 sacas por hectare, enquanto uma produção considerada boa ultrapassa mais de 40 sacas/hectare.


