O discurso
O polêmico discurso de Omar Mazzei Guimarães, um dos primeiros presidentes da Sociedade Rural do Paraná, feito durante a inauguração do Parque de Exposições Ney Braga, em 1965, surpreendeu até os jornalistas que cobriam o evento, causando expectativa sobre a possível prisão do líder ruralista.
''Num primeiro momento, não tivemos noção dos efeitos do pronunciamento'', lembra o jornalista Widson Schuwartz, que nessa época trabalhava na Folha de Londrina.
Ao iniciar seu pronunciamento, Mazzei afirmou que o novo parque de exposições não tinha o objetivo apenas de exibir os progressos da pecuária regional, mas pretendia se transformar em infra-estrutura de apoio para o desenvolvimento da pecuária. Após cobrar do governo federal assistência técnica, crédito para a venda e compra de reprodutores na feira e isenção fiscal nas operações - o que já acontecia no Rio Grande do Sul e em São Paulo - o ruralista derrubou sobre o colo da ditadura as críticas contra a política agrícola:
''Lamentamos apenas que, até o momento, não se possa mencionar qualquer colaboração do Ministério da Agricultura à história desse recinto. Temos esperança, porém, de que, mudadas como andam as coisas na esfera federal, ainda possamos obter alguma coisa que justifique a existência daquele órgão, no conceito dos lavradores e criadores desta região'', afirmou Mazzei, pedindo licença às autoridades para mais algumas considerações.
Para alguém que gostava de alimentar polêmica, Mazzei não esqueceu de um ingrediente essencial em seu discurso: a ironia.
''Mas a maior lacuna reside no escoamento da safra das lavouras anuais, sobretudo dos cereais, que estão eles garantidos por preços mínimos do governo federal. E o que acontece? Estamos assistindo à maior safra de milho e de arroz do Norte do Paraná (...). O preço mínimo não poderá ser como dele o vinham fazendo, material de propaganda governamental, que na prática se reduza na mais desumana escorcha do humilde plantador de cereais'', comentou Mazzei.
Na época, restrições à agricultura e pecuária paranaenses - que não tinham outra explicação a não ser a defesa de interesses políticos - lembram fatos recentes.
Porém, a coragem das lideranças locais, representada pelo discurso do ruralista, escorou no peito a ditadura que, alguns anos depois, contaria com o reforço do Ato Institucional número 5 (AI-5) para garantir plenos poderes.
''O Ministério da Agricultura nega autorização para vinda de zebu da Índia, usando argumentos zootécnicos, que a prática de cada dia desmente, e sanitários, que mais constituem uma crítica à própria competência daquele órgão do que algo de realmente objetivo'', criticou o presidente da Sociedade Rural.
Castelo Branco preferiu a diplomacia à regatear em vestir a carapuça. (F.L.)





