O difícil comércio de hortifrutícolas
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 10 de agosto de 2001
Marcos Zanatta<BR>De Maringá 
A promoção de frutas, verduras e legumes realizada todas as semanas pelos supermercados de Maringá está ameaçando os feirantes e pequenos produtores da cidade. ''Não adianta o governo criar vilas rurais e lançar programas de diversificação se o produto não tem mercado'', alerta o presidente do Sindicato dos Feirantes Autônomos de Maringá, Moisés Martins.
Ele reclama que antes os supermercados realizavam as promoções de hortifrutícolas apenas às quartas-feiras, ''para competir com a feira do produtor''. Agora, revela, os mercados fazem promoção um dia antes na loja mais próxima de onde vai ser realizada a feira livre. ''A gente tinha três feiras fortes durante a semana, na terça, na quarta e no sábado. Agora só restou a de domingo'', lamenta.
O agrônomo Jorge Ogassawara, da Emater local de Maringá e responsável pela feira do produtor, lembra que o problema com preço baixo dos mercados é antigo. ''O pequeno, que sobrevive de algumas culturas, é obrigado a vender a preço baixo também e acaba descapitalizado e fora do mercado'', diz. Ele concorda no entanto que alguns produtores ficam sem alternativa, e comercializam a valores abaixo do custo, para lucro do varejista.
O presidente da Associação dos Supermercados do Paraná (Apras) em Maringá, Carlos Alberto Tavares Cardoso, diz que ''desconhece'' acordo entre os mercados para promover hortifrutícolas em dias alternados. ''A promoção de produtos às quartas feiras é normal em todo o país, apenas algumas empresas adotam outros dias'', alega.
Ele diz ainda que a guerra de preços de verduras, legumes e frutas se deve à grande concorrência entre os próprios supermercados. Cardoso garante que as redes compram de produtores locais, mas preferem os grandes fornecedores justamente para conseguir praticar preços baixos. ''A feira não vai acabar por causa da promoção das lojas e muito menos queremos o fim dos pequenos produtores, que também são nossos fornecedores'', afirma.
Produtores Uma mostra da situação no campo, segundo Martins, são os feirantes que produzem parte do que comercializam. ''Um dos nossos associados comprou um sítio de 2,5 alqueires, investiu em banana e não aguentou as promoções dos mercados''. No ano passado, quando as redes começaram a vender banana a R$ 0,03 o quilo, o produtor foi obrigado a se desfazer da chácara. ''De feirante a pequeno produtor hoje ele está na periferia de alguma cidade da região, possivelmente sem emprego'', diz.
A reclamação é a mesma na feira do produtor, realizada duas vezes por semana no estacionamento do Estádio Willie Davids. ''Não temos a diversidade de produtos para competir com os supermercados'', afirma Paulo Augusto Pimenta, presidente da Associação da Feira do Produtor de Maringá. Ele explica que pela lei, o produtor que tem barraca no local só pode vender o que colhe.
Algumas barracas se limitam a comercializar dois ou três produtos. ''A gente sobrevive do centavo, enquanto os supermercados colocam promoções que prejudicam os pequenos para vender um monte de coisas'', afirma. O reflexo na feira do produtor, segundo Pimenta, pode ser notado principalmente aos sábados. ''Até algum tempo atrás a gente vendia tudo até as 7 horas da manhã. Agora leva mercadoria de volta''.
Qualidade O movimento em alguns dias é tão pequeno, que o feirante não tem como liquidar o que sobra. A única vantagem, que ainda ''segura'' o consumidor, é a qualidade. ''A mercadoria é colhida na véspera ou no dia, não sofre com o transporte igual o que vem de fora, e está sempre fresquinha'', diz o dirigente. A crise, no entanto, empurra a maior parte dos consumidores para o preço mais baixo e não para a qualidade.
Os dois representantes dos feirantes acham que os supermercados estão praticando ''dumping'', e que a vantagem ''ilusória'' para o consumidor pode acabar. ''A partir do momento em que apenas as grandes redes ou os grandes mercados conseguirem sobreviver, terão o controle do preço nas mãos'', alerta Martins. Ele revela que nos últimos 12 anos o número de feirantes em Maringá caiu de 500 para 165. ''O reflexo disso no campo a gente não tem como medir'', diz.
Os feirantes chegaram a acionar o Procon, que pode apenas orientar. ''Pode estar ocorrendo crime contra a economia popular, mas não é fácil provar'', explica o chefe do órgão, Adilson Reina Coutinho. Ele diz que muitos mercados podem estar comprando mercadorias com notas de valores mais baixos, que justifique os preços de promoção, mas acha difícil identificar a irregularidade.


