Curitiba - A mudança de patamar do câmbio está provocando um efeito inédito na agropecuária brasileira. Pela primeira vez, o preço da saca de soja praticamente encostou na cotação da arroba do boi gordo. O fato não tem origem no mercado agrícola, mas sim na disparada do câmbio que sobrevalorizou o preço da soja explicou o professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), José Roberto Canziani.
O fato tornou-se ainda mais visível na última segunda-feira, dia 30 de setembro, quando o câmbio atingiu o seu pico. Naquele dia, a soja estava cotada a uma média de R$ 44,00 a saca ao produtor, no mercado de balcão (R$ 47 no mercado de lotes, em Maringá), e o boi gordo, entre R$ 49,00 e R$ 50,00 a arroba. Com isso, o valor de 1,11 saca de soja podia comprar uma arroba de boi gordo. Já na quarta-feira, dia 2 de outubro, com a queda da taxa cambial, a saca de soja caiu para R$ 40,00 e a cotação do boi gordo se manteve. Nesse dia, a relação de compra foi para 1,25. Ou seja era preciso 1,25 saca de soja para comprar uma arroba de boi gordo, ''a menor relação dos últimos 10 anos'', salientou Canziani.
Para se ter uma idéia da sobrevalorização da soja este ano, nos anos de 1998 e 99 a relação de valor entre soja e boi gordo era de 2 para 1. Ou seja, eram necessárias duas sacas de soja para comprar uma arroba de boi. Em 2000 essa relação cresceu para 2,4 e em 2001 caiu para 1,9. Este ano, em março a relação era bem maior, de 2,2 e depois foi decrescendo até atingir a relação de 1,25 para 1.
Enquanto isso, a cotação do boi gordo continuou com sua escalada normal. A cotação do boi gordo era de US$ 14 na quarta-feira, dia 2, o que é um preço até baixo para um período de entressafra, explicou Canziani. Para o professor, o normal nessa época seria uma cotação de US$ 16 ou US$ 17 a arroba.
Canziani explica que o impacto do câmbio foi maior sobre a soja, porque a commodity está mais vulnerável às influências do mercado externo. Cerca de dois terços do complexo soja (grão, farelo e óleo) são exportados, o que explica o peso do dólar sobre as cotações desses produtos. Já a carne bovina não sente tanto o impacto da variação cambial porque apenas entre 10% a 15% da produção brasileira é exportada.
A evolução dos preços da soja e do boi gordo este ano reflete bem a influência do câmbio sobre esses produtos. Segundo levantamento, a soja inciou o ano em queda, cotada a R$ 24,00 a saca. Em março a cotação caiu ainda mais, para R$ 20,00 a saca. Em seguida, a cotação começou a evoluir até atingir a cotação de R$ 40,00 na última quarta-feira, depois de cair R$ 4,00 em dois dias.
A cotação do boi gordo teve pouca flutuação. Iniciou o ano, cotado a R$ 44,50 a arroba, atingiu seu menor preço em maio, quando foi cotado a R$ 42,00 a arroba. Desde essa época, a cotação vem se recuperando até atingir a cotação atual, em torno de R$ 50,00 a arroba.
Para os últimos três meses do ano, Canziani disse que a cotação de soja certamente vai continuar acompanhando o câmbio. Já a cotação do boi gordo deve reagir um pouco mais ainda este mês, que é pico de entressafra. Mas para o mês que vem, a cotação deve cair, com a entrada do período de safra.

mockup