O desfile de 7 de setembro em Sertaneja
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sexta-feira, 24 de agosto de 2018
Dedo de Prosa 

Os anos eram 1960 e 1961, quando estudei a 1ª e 2ª séries do ginásio. Nessa época, em Sertaneja, havia o Grupo Escolar, o Ginásio Estadual e a Escola Japonesa.
Sete de setembro, Independência do Brasil. Festa cívica, um dia cheio de atividades na cidade. Os preparativos iniciavam-se um mês antes. Os alunos eram dispensados nas últimas aulas para ensaiar a marchar. Organizavam-se os pelotões dos meninos e os das meninas. Eram formados por quatro filas de dez alunos cada, começando pelos mais altos; eu não gostava muito porque sempre fui baixinha e ficava lá no final. Os professores ficavam andando perto de nós, falando para manter distância, colocar o braço direito sobre o ombro da colega da frente, olhar o alinhamento e falavam palavras de ordem, como: Pelotão, em frente, marchem! Esquerdo, direito! Esquerdo, direito! O pé esquerdo mais forte. E só se ouvia o som cadenciado dos pés no chão. Quase perto do dia, marchávamos com a fanfarra do ginásio. Também nesses dias, ensaiávamos os Hinos Nacional e o da Independência, tudo com muito civismo e responsabilidade; alguns alunos recitariam poesia e grupos preparavam jograis alusivos à data.
Às vésperas do desfile, preparávamos o uniforme. As meninas usavam saia pregueada azul, camiseta, meias e conguinhas ( um tipo de tênis ) brancos. Dependendo do estado do calçado, era só lavar e depois de enxuto, passava-se uma tinta branca própria - o "nugget"- e ficava como novo. Se estivesse bem velho, nossos pais compravam outro. Um dia antes do desfile, deixávamos tudo arrumadinho na cadeira e, à noite, a gente nem conseguia dormir direito tal a ansiedade e o medo de perder o horário. Na escola, fora dito que não podia faltar, só se estivesse doente e de cama; ser pontual, alimentar-se direito no café da manhã porque não se sabia a que horas tudo ia acabar.
Era o dia do desfile, animados e felizes, íamos para a escola. À frente, iam os porta-bandeiras que levavam as três: do Brasil, do Paraná e da cidade; depois a fanfarra, cujos instrumentos eram enfeitados nas cores verde e amarela; uma baliza separava cada pelotão. Eram meninas selecionadas, usavam trajes de tenista ou de balé; levavam na mão um pedaço de cabo de vassoura enfeitado com fitas verde e amarela e que era usado nos saltos e evoluções que faziam durante o desfile. Havia um pelotão especial com bicicletas enfeitadas com fitas também verde e amarela. Era muito bonito de se ver!
Os professores acompanhavam o desfile, supervisionando tudo. Marchávamos pelas ruas principais de Sertaneja. Nenhuma tinha asfalto, era terra mesmo, uma poeira só, mas não nos preocupávamos com isso. Nas calçadas, alinhavam as pessoas para nos assistir. Quando eram pessoas amigas, faziam gracinhas, então abaixávamos a cabeça de vergonha e errávamos o passo.
Terminava o desfile. Um ano foi no campo de futebol e no outro, na praça, no jardim da cidade. Todos cantavam o Hino Nacional, vinham os discursos das autoridades, as poesias, os jograis e finalizava com o Hino da Independência. À tarde, havia jogo de futebol entre professores e alunos. Voltávamos para casa cansados, mas felizes e orgulhosos por termos cumprido um dever cívico de todo cidadão brasileiro.
Idiméia de Castro, leitora da FOLHA


