O consertador de panelas
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de outubro de 2018
Gerson Antonio Melatti 
A feira livre é um dos lugares onde o campo e a cidade se encontram. Em dezenas de barracas instaladas nas ruas da grande Londrina os feirantes trazem as riquezas que produzem para suprir necessidades dos moradores urbanos. E não é pouca coisa. Ali se acha todos os tipos de frutas, legumes, verduras, cereais, queijos, conservas, embutidos, flores e especiarias.
Na feira acontecem situações especiais, nascem amizades, surgem histórias, há cortesias e trocas de conhecimentos. Um desses casos é o do homem que conserta panelas. Na agitação da feira, à primeira vista demora-se um pouco para percebê-lo, pois sua imagem é nebulosa, quase um borrão. Trabalha num canto com pouca claridade, onde não se enxerga muito além de uma silhueta. Para vê-lo melhor é preciso se aproximar da barraca onde está o letreiro "conserta-se panelas". Usa uma boina surrada, tem a barba comprida e o seu estrabismo deixa a gente desconcertada, porque quando olha pra alguém o seu olhar aponta em outra direção.
Foi trabalhando com o pai desde pequeno que aprendeu a consertar panelas. E hoje, passando dos setenta anos, exerce seu ofício com maestria. Há mais de quarenta anos monta sua barraca na feira. Faça sol ou faça chuva, é o primeiro a chegar e o último a ir embora. De madrugada, quando os primeiros feirantes vão chegando, sua tenda já está montada e ele é visto concentrado no silencioso martelar das panelas.
Ao longo do tempo se tornou símbolo da feira de rua, a feira não existe sem a sua presença e ele é singular dentro dela. É um artesão que restaura a vida de panelas, chaleiras, leiteiras, frigideiras, canecas. Dia após dia, repara os utensílios confabulando com os clientes, ouvindo desabafos, alegrias e tristezas. Possui a habilidade de cativar as pessoas, bem ao estilo dos contadores de histórias. Na maior parte do tempo ele nem fala, fica só mexendo nas panelas e escutando com paciência o que os outros têm a dizer.
Alguns clientes, mesmo não tendo algo para consertar, acabam passando por ali só para conversar e dizem que o tom de voz do homem das panelas acaricia o coração das pessoas quando ensina que os amassados, pancadas e riscos nos utensílios são marcas da vida, cicatrizes que o tempo não apaga.
Entre os feirantes circula a conversa que ele esteve doente nos últimos anos, com problemas que afetaram a sua visão e hoje enxerga pouco, por isso é que trabalha na penumbra, fazendo os consertos com base no tato e nas habilidades que desenvolveu.
As pessoas que frequentam a feira gostam de ouvir as histórias que contam a seu respeito, principalmente a sua preocupação ecológica, quando aconselha a não descartar as panelas velhas, mas transformá-las em vasos de plantas e flores, podendo cada família enfeitar seu próprio jardim.
Muitos se encantam ao saber que no final da feira ele recolhe frutas doadas pelos feirantes, deixando no jeito para serem apanhadas pelos moradores de rua no começo da noite. O que quase ninguém sabe é que faz dois anos que o consertador de panelas morreu.
Gerson Antonio Melatti, leitor da Folha.


