Na linha de frente a presença delas ainda é discreta. Mas sua força, delicadeza e determinação aos poucos têm transformado a forma de se fazer agricultura e, acima de tudo, colaborado para a permanência da família no campo. As mulheres têm mostrado cada vez mais sua importância para o bom desempenho do agronegócio e a economia no geral. Na semana em que foi comemorado o Dia Mundial da Mulher Rural, a FOLHA conta a história de personagens que há décadas vivem e trabalham para fazer do campo um bom lugar para se viver.
Lúcia Helena Segantim, proprietária da Fazenda Luz do Sol, em Rolândia, é uma delas. Hoje, quando passeia pela propriedade sente um orgulho tremendo do trabalho que tem feito. Além da eficiência da produção de grãos, mantém intacta a Área de Preservação Permanente (APP) e refez toda a área de mata ciliar, que tem servido de exemplo para a sociedade.
O local, de tão bem cuidado, ganhou dos órgãos competentes o título de Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN). Esse título é a garantia de que a área nunca poderá ser mexida, mesmo que a fazenda mude de dono. ''Sinto muito orgulho desse trabalho, de contribuir para o equilíbrio do meio ambiente, de fazer um bem não só para mim, mas para o planeta'', revela Lucinha, como é chamada pelos amigos.
Para chegar a esse estágio, entretanto, o caminho foi árduo e cheio de surpresas. A fazenda, com cerca de 100 alqueires, passou para as mãos de Lúcia Helena após o divórcio, em meados da década de 1980. Para não perder tudo, precisou aprender rápido sobre a lida no campo. ''Nunca havido mexido com agronegócio, mas enfrentei o desafio'', relembra. Primeiro, adaptou toda a área para a criação de boi, mas o sentimentalismo feminino falou mais alto. ''Vi que não era aquilo que eu gostava. Ficava com dó de pensar que criava os animais para serem abatidos'', confessa Lucinha. ''E meu movimento é de promover a vida'', afirma.
Então, passou a produzir grãos. ''A agricultura mexe com a vida, esse ciclo de plantar, ver crescer, florescer me interessa'', conta a produtora. Das tarefas do campo à administração dos negócios, tudo passava pelas suas mãos. ''Começava a trabalhar às seis da manhã e só parava às 10 da noite. Fazia reunião com funcionários, com os técnicos da cooperativa. Estava em todas as frentes'', conta, lembrando que no começo foi difícil ganhar a confiança das pessoas com quem trabalhava.
Anos depois o negócio já foi reorganizado duas vezes. Primeiro, Lucinha mudou para a cultura de cana-de-açúcar, em parceria com a cooperativa. Agora voltou aos grãos, em parceria com um vizinho. Com as mudanças, Lúcia passou a ter mais tempo livre para se dedicar à area ambiental da propriedade. E o resultado disso, é que os projetos não param de surgir. Lucinha pretende disponibilizar a área para visitação. ''Quero trazer escolas, grupos para fazer caminhada, mostrar a importância de se preservar o meio ambiente'', destaca, frisando que ainda precisa fazer um levantamento da fauna e da flora do local.
A produtora admite que não é fácil implantar e cuidar de uma área ambiental como a que tem na propriedade. Ela confessa, por exemplo, que precisa entender melhor a legislação do setor. Mas recomenda que outros produtores façam o mesmo. ''Cuidar do meio ambiente agrega valor ao nosso produto, é um nicho financeiro interessante'', pontua. E destaca que quem cuida de uma reserva, de uma nascente, não faz só para si mesmo, faz para o planeta.

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