O campo e o censo
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 22 de junho de 2001
José Eli da Veiga 
Os resultados do Censo Demográfico de 2000 contradizem o senso comum a respeito do Brasil rural. Mostram como é esquisita a unanimidade sobre um êxodo populacional supostamente generalizado. O que realmente está a ocorrer é algo bem diferente. Há um verdadeiro processo de coagulação espalhado pelo País.
Tudo começa com os 58% dos habitantes que se aboletam em três maciços urbanos. O primeiro é formado por 23 Regiões Metropolitanas e seus respectivos colares ou áreas de expansão. Nelas residem 41% da população brasileira. Apesar de incluírem municípios pequenos, e de baixa densidade populacional, estes devem ser considerados urbanos por causa de sua localização. O mesmo ocorre em 26 outras aglomerações não-metropolitanas, que compõem o segundo elo do Brasil urbano, contendo 8% de sua população total. E outros 9% da população brasileira vivem na terceira teia, formada por 77 centros urbanos que não pertencem a aglomerações.
As populações dos três blocos urbanos tiveram idêntico aumento, de 10% , no período 1996-2000. Diferente do que ocorreu nas encostas desses maciços, formadas por espaços que não chegam a ser urbanos, mas também não são rurais. São municípios com população relativamente elevada (entre 50 e 100 mil), ou ainda com população bem inferior mas com altas densidades demográficas (100 hab/km2 ou mais). Nesses 421 municípios híbridos, chamados aqui de rurbanos,
a população cresceu 7% no período.
E nos restantes 4.990 municípios, que só podem ser considerados rurais, a população aumentou somente 5% - metade do salto urbano - em aparente confirmação do êxodo.
Todavia, quando se presta mais atenção nas taxas de crescimento populacional desse oceano de municípios rurais, se percebe enorme frequência de um mesmo padrão em todas as unidades da Federação (UF). Um grupo de municípios rurais vê suas populações crescerem a um ritmo superior ao da respectiva UF. Em outro grupo também há aumento populacional, mas em cadência inferior à da UF. E, no
terceiro, há queda. Como cada um desses grupos oscila em torno de um terço dos municípios da respectiva UF, há interesse em que a totalidade dos municípios rurais seja separada em três partes iguais. Ao fazê-lo, o que mais impressiona é que o aumento populacional do terço superior foi de 16%. Muito maior, portanto, que o do Brasil urbano.
Mais intrigante ainda é que em cada uma das 5 grandes regiões, e em todas as 27 UFs, está ocorrendo esse firme adensamento demográfico de significativa parcela dos municípios rurais. Raras são as microrregiões geográficas discrepantes. Além disso, os perfis dos três terços são bem próximos. Por exemplo, os municípios com menos de 20 mil habitantes constituem 80% nos dois grupos superiores, e 90% no terceiro. E a população mediana dos dois primeiros está próxima de 10 mil habitantes, enquanto a do terceiro já caiu para 6,5 mil. Trata-se, portanto, de um verdadeiro processo de coagulação, espalhado por quase todos os recantos rurais do território brasileiro.
Dito de outro modo, os resultados do Censo Demográfico de 2000 revelam os três compassos do Brasil rural. Há realmente êxodo, tanto nos municípios que estão em marcha ré, como em uma parte dos que engataram uma primeira, ou uma segunda, mostrando-se incapazes de acompanhar o ritmo urbano, que está em terceira. Só que os mais acelerados, ou mais atraentes, estão em quarta, ou até em quinta, com velocidades bem superiores à dos três maciços do Brasil urbano.
São coágulos de dinamismo que continuam obscurecidos pela fantasmagórica ilusão de que o Brasil rural está condenado à míngua. Pois, segundo os nebulosos cálculos oficiais, ele se extinguiria em menos de 30 anos, contrariando a evolução histórica de todos os países desenvolvidos. Inclusive da pequena e chata Holanda, o país mais urbano do mundo (exceto ilhas-Estado do tipo Cingapura). Mas esta é uma outra tolice, que fica para uma outra vez.
O autor é professor-titular da FEA-USP, coordenador do doutorado em Ciência Ambiental do Procam/USP


