O caminho da carne


Fábio GaliottoReportagem Local
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As leis brasileiras garantem a possibilidade de rastrear todo o trajeto da carne, que passa por fiscalizações e testes até chegar à mesa do consumidor
As leis brasileiras garantem a possibilidade de rastrear todo o trajeto da carne, que passa por fiscalizações e testes até chegar à mesa do consumidor | Fotos: Sérgio Ranalli



Do campo ao prato a carne faz um caminho extenso e passa por análises em todos os elos da cadeia. Com a Operação Carne Fraca, porém, surgiu o temor de que o churrasco de domingo ameace a saúde do consumidor. Não é uma preocupação sem motivo. A relação promíscua entre fiscais e fiscalizados, com representantes do setor privado que doam caixas dos melhores cortes para agentes públicos, deixa a sensação de que não existem limites à corrupção no Estado e no País. Não há defesa para os abusos apontados pela Polícia Federal (PF), mas é preciso conhecer o trajeto, a quantidade de envolvidos e, principalmente, o número de processos de fiscalização sobre uma asinha de frango, antes de tomar a decisão final sobre o consumo.

As leis brasileiras garantem a possibilidade de rastrear todo o trajeto da carne. O primeiro passo é o cadastro de todas as propriedades rurais de criadores, que estão registradas pela Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar). No campo, os agentes fazem ensaios, testes, auditorias e fiscalizações sobre a saúde e a vacinação dos animais, que somente podem subir a um caminhão com uma Guia de Transporte Animal (GTA), que ateste as boas condições.

Presidente da Adapar, o médico veterinário Inácio Afonso Kroetz afirma que todos os especialistas em saúde animal sabem que existem doenças de notificação obrigatória aos órgãos sanitários. Para bovinos, as principais são a febre aftosa, a estomatite vesicular, a raiva, a tuberculose e a brucelose. No caso das aves, são a doença de New Castle, a influenza aviária e salmonelas e, para os suínos, a peste suína clássica e a doença de Aujezki. "Isso não impede que outras doenças sejam notificadas, mas temos de garantir, no transporte ou na exportação, que os animais não são portadores dessas doenças", diz.

O caminho da carne



No frigorífico, além da exigência do GTA, os animais passam por exames ante mortem, no caso dos bovinos e suínos. Para as aves, que não podem esperar pelo exame, é exigido um boletim sanitário com informações sobre mortalidade nas últimas 72 horas em cada lote, que não pode exceder 10%. "E se faz ainda a inspeção durante o abate, com exames de vísceras e de carcaças", completa Kroetz, sobre a análise post mortem.

O coordenador de Defesa Agropecuária da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Decio Coutinho, lembra que, nesta fase industrial, a fiscalização pode ser feita por agentes municipais, estaduais ou federais, de acordo com o destino dos produtos, que podem ser locais, regionais ou para o País e o exterior, respectivamente. "Não existe diferença de inspeção para o mercado interno e externo", diz. "O que muda na exportação são algumas exigências que alguns países ou blocos têm, como o Japão, que não aceita carne de boi vacinado contra aftosa", completa.

Aquele carimbo azul que é encontrado em alguns pedaços de carne com a sigla SIF é do Serviço de Inspeção Federal, que garante a fiscalização da carne brasileira e é aceito por mais de 150 países, diz Coutinho. "Se eu pegar um produto na gôndola do supermercado, consigo chegar até a propriedade de onde saiu o animal", informa o representante da CNA, ao citar o memorial descritivo de cada rótulo.



DA INDÚSTRIA AO VAREJO
Mesmo para a embalagem da carne, há uma regulamentação e uma fiscalização próprias à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). "Os regulamentos relacionados às embalagens incluem as embalagens e materiais que entram em contato direto com alimentos e são destinados a contê-los, desde a sua fabricação até a sua entrega ao consumidor, com a finalidade de protegê-los de agente externos, de alterações e de contaminações, assim como de adulterações", informa o órgão.

A Anvisa é também responsável pela fiscalização sobre os alimentos a partir da saída da indústria, explica o diretor da Adapar. "A Anvisa apura as informações do rótulo, a temperatura de armazenagem no transporte e no comércio, o prazo de validade e se a embalagem foi violada", exemplifica Kroetz. Algumas grandes redes de supermercados também fazem exigências a transportadores, como a garantia de temperatura apropriada para o armazenamento.

Há ainda uma rede de laboratórios especializados que dão apoio em todo o processo, que é também de interesse dos empresários, por garantir a boa fama da carne brasileira no Brasil e no mundo. "Todos os processos são acompanhados por médicos veterinários e, periodicamente, por fiscais", cita Kroetz. "O fabricante também precisa garantir que cumpre toda a legislação, ou perde mercado", complementa.

A OPERAÇÃO
A Operação Carne Fraca deflagrada pela Polícia Federal no último dia 17, é considerada a maior ação, em números, da história da corporação, com 1,1 mil agentes envolvidos. A Justiça Federal no Paraná expediu 309 mandados judiciais, dos quais 38 de prisão preventiva ou temporária, 77 de condução coercitiva e 194 de busca e apreensão, em residências e locais de trabalho dos investigados e em empresas, em seis estados e no Distrito Federal. As investigações apontavam que frigoríficos subornavam fiscais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para que fizessem vista grossa em inspeções sanitárias.

O governo federal, por outro lado, lembra que apenas 33 dos 2,3 mil auditores do Mapa são investigados e todos foram suspensos. Das 4,8 mil unidades de processamento animal, 21 foram envolvidas em irregularidades. Três tiveram as atividades suspensas e todas serão fiscalizadas nos próximos dias. Ainda, dos 853 mil carregamentos em 2016 exportados pelo Brasil, 184 tiveram algum tipo de irregularidades.

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