‘O Brasil não pode ser tratado de forma diferente dos outros países'
Um dos líderes da JBS Seara comentou o momento de apreensão do setor após um mês do 1º caso de gripe aviária em um matrizeiro comercial no País
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de junho de 2025
Um dos líderes da JBS Seara comentou o momento de apreensão do setor após um mês do 1º caso de gripe aviária em um matrizeiro comercial no País
Lúcio Flávio Moura - Especial para a FOLHA 

Dia 15 de maio passou a ser uma data sublinhada na avicultura de corte do Brasil.
Quando o expediente foi encerrado nas granjas e abatedouros naquela quinta-feira, a sensação é que um banho de água fria havia paralisado o setor, quase sempre apontado como um caso de excelência nacional, um ambiente que raramente abre mão da sua altivez e do otimismo, símbolo da arrancada que transformou o Brasil em potência na exportação de alimentos no século 21.
Uma gigantesca cadeia de produção que emprega 3,5 milhões - 150 mil somente na indústria - e faturou mais de R$100 bilhões em 2024 (de acordo com o relatório anual da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) se resignou com a confirmação da inédita detecção do vírus da influenza aviária de alta patogenicidade (IAAP) em granja comercial e foi à luta para reduzir os danos de suspensões e embargos dos países compradores que pipocaram quase instantaneamente após o informe oficial.
Um mês depois, a mobilização incansável das equipes técnicas do Mapa (Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento), dos órgãos estaduais correspondentes, das representações diplomáticas e dos negociadores das grandes empresas para reverter a situação, o setor traça cenários e se apega à sua solidez para superar o episódio, de certa forma relativamente aguardado desde 2006, quando a doença começou a circular no mundo, e ainda mais previsível quando focos em animais silvestres e aves de subsistência foram verificados em maio de 2023.
José Antonio Ribas Junior, diretor executivo de Agropecuária e Sustentabilidade da JBS Seara, maior empresa do mundo em produção de proteína animal, esteve em Londrina esta semana para participar como palestrante da XVII Semana Acadêmica de Zootecnia da Universidade Estadual de Londrina, e conversou com a reportagem da FOLHA sobre o assunto.
Gaúcho, graduado em engenheiro agrônomo pela Universidade de Passo Fundo e com mais de 30 anos de atuação profissionais em grandes empresas de abate de frango e porco, Ribas Junior elogiou o trabalho do Mapa, disse que o País fez um trabalho “exemplar” de mitigação e defendeu uma postura firme do setor para que o episódio sanitário não funcione como um pretexto para que o competitivo mercado global trate o Brasil de forma diferente dos outros países que registram a doença em suas granjas. Na entrevista, ele exaltou as potencialidades do Brasil no setor, em especial uma escalada contínua nas vendas a médio prazo para o mercado asiático E questionou: qual outro país é capaz de substituir as 5 milhões toneladas de carne que os grandes “players” brasileiros fornecem ao mundo todo ano?
Confira abaixo os principais trechos da entrevista concedida no campus da UEL.
QUALIDADE DA REAÇÃO
“O Brasil se preparou para esse momento durante mais de 15 anos. Treinamos protocolos, trabalhamos procedimentos, realizamos um trabalho enorme de biosseguridade nas granjas. Fomos o último país relevante que teve um caso registrado na produção comercial. Nosso intervalo entre o registro em aves domésticas ou de vida livre e o registro na granja comercial foi de dois anos. Em outros países, isso aconteceu quase simultaneamente. Isso mostra que estamos fazendo prevenção com muita eficiência e um processo de reação exemplar. Nos impressionamos com a qualidade de reação do Chile, que foi o primeiro país da América do Sul a sofrer com o problema, mas fizemos um trabalho ainda mais competente que ele. Em menos de 72 horas, eliminamos o foco e toda a área periférica. Esta contenção foi exemplar e agora é fundamental para que a gente comece a etapa de recuperação de mercados. Nesta etapa, o campo técnico sai e entra a política e a capacidade de negociação comercial. As posições contra o Brasil foram duras mas já começaram a ser flexibilizadas, o que não deixa de ser um reconhecimento sobre a consistência da nossa reação.
Não podemos deixar de colocar nas mesas de negociação esta eficiência e o fato de que somos líderes na exportação de frango. O mundo não pode prescindir dessa produção da noite para o dia. Não vamos passar por cima das regras, mas devemos trabalhar para que elas sejam adequadas, sem exagero de bloqueios onde a coisa não é tão grave.
MAPA: DIGNO DE PARABÉNS
“Tanto o ministério quanto as entidades estaduais estão fazendo um trabalho que é digno de parabéns. Erradicação de foco, vigilância, coordenação, tudo muito bem feito.Todos os treinamentos que fizemos nestes últimos 15 anos, simulando todos os protocolos, já tínhamos testado no ano passado no episódio da doença de Newcastle. Está tudo muito claro: o papel do serviço veterinário dos estados, do serviço veterinário do ministério, das entidades privadas. Graças a isso, 15 dias depois do registro do foco, já estávamos reabrindo alguns mercados. A gente vem trabalhando fortemente para que as regras não sejam diferentes para nós do que para outros países. Na América do Norte, a influenza é endêmica em todo o seu território. Na Europa e na Ásia, também. O Brasil não pode ser tratado diferente. Esta é a primeira regra do jogo. E aí aí vem um esforço importante que é um esforço de governo mesmo. E aí, eu diria, temos que aplaudir nosso ministro Carlos Fávaro, que tem feito um trabalho incessante de contato com esses mercados. É o grande trabalho que ele pode fazer, porque, vamos lá, a parte técnica nós damos conta aqui. Ao mesmo tempo, é bom sermos cautelosos. Quem tá olhando pro Brasil faz reflexões. Será que é um caso só? Será que não virão mais casos? Será que realmente conseguiram conter o caso? Nenhum outro país conseguiu. Será que o Brasil vai ser o primeiro a conseguir conter casos? Então o mundo olha com uma certa interrogação para o Brasil. Temos que ter a sabedoria de entendermos o ponto de vista deles. O que temos que buscar é conseguir regionalizar o máximo possível os futuros embargos e suspensões. O Brasil é um país continental e se a gente conseguir regionalizar as regras é um grande avanço. Um ponto ótimo seria padronizar os embargos para a produção de 10 quilômetros de raio dos focos e destravar o resto do território. Seria o ideal.”
ANO COMPROMETIDO?
“2024 foi um ano espetacular para o setor. 2025 vinha se desenhando tão bom quanto. Com o preço dos grãos sob controle, a operação desta cadeia, que é longa, estava vivendo um bom momento. Mas com as travas após o foco, o cenário mudou. Mas o setor vai conseguir se adaptar rapidamente. Acredito que devemos terminar o ano próximo da normalidade. Mas sempre fica um ponto de interrogação: teremos novos focos da doença? Se isso acontecer, vamos ter que reavaliar toda a cadeia.”
PERSPECTIVAS A MÉDIO PRAZO
“O mercado formado pela China e pelos países vizinhos continuará a ser a grande fronteira exportadora do Brasil. É uma região onde vivem mais de 4 bilhões de pessoas, metade da população mundial. Um quarto desta população ainda não tem um prato de comida adequado na sua mesa. Então, há muito o que explorar. Eles precisam comer e a gente tem condições de atender esta demanda. Depois, num futuro próximo, podemos fazer negócios muito importantes com países do continente africano. A confiança da Seara e de todo o setor de que continuaremos expandindo nosso mercado é que nós nos adaptamos às exigências do mercado. Quando o importante era ter um preço competitivo, nos tornamos imbatíveis. Quando o mercado passou a exigir qualidade, passamos por todos os testes e hoje fornecemos proteína para 150 países. Ser o líder global nas exportações e vender para todos os continentes é um atestado indiscutível de qualidade. Agora, nos últimos tempos, a sustentabilidade socioambiental também é muito observada, mas também neste aspecto, o Brasil tem muito a mostrar, basta que não soframos com aquela síndrome que tanto nos atrapalha, a síndrome do vira-latas. Temos 66% do nosso território com recursos naturais preservados e devemos colocar isso na mesa sempre. E há estudos que apontam que a economia rural dos municípios que produzem frango em larga escala garante índices de desenvolvimento humano bem superiores aos que não produzem. Geramos renda, emprego, perspectivas. Então, para a Seara e para toda nossa cadeia, em sustentabilidade também somos imbatíveis. Basta mostrar nossa realidade que o mercado vai entender perfeitamente isso”.


