Paiol é uma dessas palavras que nos remetem ao vocabulário do sítio. Designava antigamente um locar de armazenamento de pólvora e armamentos .Com o passar do tempo também foi significando tulha - ou tuia - como se falava popularmente. Em Curitiba tem um antigo paiol de pólvora de 1874 e que desde 1972 foi tornado Teatro Paiol, na Praça Guido Viaro, no bairro Prado Velho. Um monumento cultural.

Imagem ilustrativa da imagem O bom e velho paiol
| Foto: Marco Jacobsen

E o paiol de sítio foi se transformando na verdade num pequeno celeiro. Era o tal do paiol de milho. Ou paió. Lá eram depositadas as espigas de milho colhidas. Muitas vezes acontecia de carunchar o milho e os bichinhos ficavam fazendo furinhos nas espigas amarelas cor de ouro. Os pequenos insetos andavam por tudo. E quando o milho tinha que ser ensacado? Enquanto se trabalhava, os carunchos iam subindo na gente e com o suor iam grudando na pele. Pinicava pra valer. Pinicar – pra quem não sabe - é coçar. No sítio há sempre uma maneira peculiar de falar as coisas. Às vezes alguém podia ter fastidio de alguma coisa- fastidio é uma irritação ou incômodo. Só não podia ter fastídio de puxar enxada pra capinar café.

Ali no paiol se colocavam umas ferramentas penduradas nas paredes .Ficavam lá também os balaios de bambu que com o tempo iam perdendo os beiços e quase todos com as pontas saindo por cima parecendo chapéu desfiado de festa junina . Às vezes o fundo do balaio quebrava e tinha que se colocar qualquer coisa pra não caírem as espigas na hora de enchê-los. De vez em quando não tinha jeito, era preciso comprar uns balaios novos e havia sempre alguém nas redondezas que sabia fazer balaio. Moita de bambu tinha sempre uma enorme e era local de muita aranha que nem bananeira.

No paiol também dava para tirar uma pestana - um cochilo- quando não dava pra terminar o serviço no meio de uma chuva rápida. Depois, era aguentar os carunchos. Mas era um sossego sem igual ouvir a chuva cair lá fora e dar uma folga pra enxada por uns instantes.

Perto do paiol ou dentro, não raro, tinha uma geringonça que se usava pra tirar o milho do sabugo. E tinha que fazer força! Girava-se uma manivela e era barulhento aquilo.Depois colocavam-se as espigas num canto e o milho debulhado dentro de um saco de estopa, tecido ou plástico trançadinho onde se passava uma agulha grande e meio torta para fechá-lo.

Muitas vezes os pais faziam bonecas para as filhas cortando um pedaço da espiga de milho aproveitando uma outra parte como cabelo. E cada um fazia uma boneca de um jeito. As meninas brincavam muito bem com aqueles brinquedos rústicos pois não havia lojas como hoje e onde as tinha era tudo muito caro. Os sabugos eram, muitas vezes, usados para fazer chama no fogão à lenha ou quebrados em pedaços, colocados em arames para iluminar o ambiente. Muito rudimentar mas ao mesmo tempo muito prático quando não havia velas ou semente seca de mamona para iluminar um ambiente por pouco tempo. Uma luz bem fraca mas que servia para não deixar o ambiente tão escuro.

Eletricidade demorou pra chegar nos lugares mais afastados, então não era toda a propriedade que tinha luz elétrica antigamente. Hoje nem imaginamos a falta de eletricidade pois em praticamente todo lugar tem uma lâmpada acesa ou uma tomada para carregar um celular - o que hoje é quase tão imprescindível quanto apenas necessário pois se faz quase de tudo pela internet. Uma escravidão moderna!

Ainda hoje, o paiol é uma construção que parece não acabar pois todo mundo que tem uma pequena plantação de milho. Qualquer sítio em que se ia, lá havia um velho paiol e nas suas portas de tábuas quase sempre tinha umas espigas trançadas pelas palhas umas nas outras. As melhores palhas de milho eram guardadas pra fazer um paiero - cigarro de palha feito com fumo de corda picado no canivete de ponta larga e acendido na binga. Outros tempos em que nada parecia fazer mal. Hoje vemos as coisas com outros olhos.

Paiol, na verdade, era mais que uma simples construção. Era um monumento cultural que abrigava costumes e tradições das pessoas que moravam no campo.

Dailton Martin é leitor da Folha

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