O boi do futuro ou o futuro do boi - Luís Gustavo P. de Moraes
O boi do futuro ou o futuro do boi
Luís Gustavo P. de Moraes
Durante anos, na pecuária de corte, o que se levava em conta eram a experiência e a prática do fazendeiro, relegando assim a tecnologia de ponta para os inexperientes e os futuristas de plantão.
Por muito tempo a pecuária de corte extensiva reinou, sustentada pelo expressivo retorno econômico da atividade; retorno este que muitas vezes acobertava dogmas, tradições e a falta de aplicação de métodos de manejo intensivos, pois não interessava incremento na produtividade.
O pecuarista de corte foi, por muito tempo, mal-acostumado pela sua atividade extrativista. Extrativista, sim, pois retirava tudo e por muito tempo preocupou-se somente na reposição do seu plantel (a famosa relação bezerro x boi gordo), relegando a nada a tecnologia de ponta.
Por certo estes referidos métodos de vanguarda foram de igual valia ou pior valia para o pecuarista à época, pois eram muito distantes da sua aplicação no dia-a-dia devido à falta de experiência prática dos técnicos; condições gerais de acesso a essas informações e as dificuldades inerentes à época para implantação com sucesso dos métodos inovadores.
Tentou-se em vão várias alternativas como: correção de solos, novas variedades de pastos, sistemas de rodízio, suplementações, confinamentos, semiconfinamento, etc.
Foram e voltaram ondas de tentativas de implantação de mudanças tecnológicas, dando assim margem a discussões sobre as suas vantagens e desvantagens, criando uma confusão mental na classe pecuária. Notam-se nitidamente em uma roda de pecuaristas de corte as diferentes e divergentes idéias e métodos a serem implantados ; problema este que não observamos em outras atividades agropecuárias. Citamos como exemplo mais próximo a co-atividade irmã, a pecuária de leite e não esquecendo a avicultura e a suinocultura. Essas atividades organizam-se, estabelecendo um modus operandi padrão, deixando abertos somente os setores para incremento de novas tecnologias, ou seja, definiram a sua estratégia básica de trabalho, direcionando seus esforços para a melhoria dos seus produtos, deixando definitivamente de lado o achismo e o modismo, adotando de uma vez por todas métodos intensivos. É só observar produtores de leite, de aves, e de suínos que não aplicaram esta conduta e literalmente morreram.
Mas a pecuária de corte insiste em não definir e a traçar os caminhos definitivos para a atividade no Brasil.
Seria por falta de capacidade? Certamente que não. A classe simplesmente não acordou para a falência dos seus métodos e modo de pensar. Creio eu que o problema do pecuarista de corte é a falta de humildade de assumir seus erros, e assim descer do pedestal em que insiste em achar que se encontra e se igualar a outras atividades, pondo-se na condição de produtor de carne.
Criticam este ou aquele método, inventam tantos outros; muitas vezes induzidos por empresas ou pessoas com nítido interesse em que a pecuária extensiva e retrógrada não acabe e continuando assim a usar seus produtos caros e milagrosos.
Com certeza o boi do futuro (ou o futuro do boi) será dirigido para alta produção intensiva, acabando de vez com a engorda a pasto, deixando somente as áreas de pastos em regiões específicas para este uso para cria e até a possível recria, deixando a terminação para as regiões produtoras de subprodutos agroindustriais, pois é inadmissível que o bovino, que é uma fábrica de reaproveitamento de subprodutos, concorra com o ser humano em seus alimentos. E isto ocorre geralmente em criações ditas intensivas em regiões longe dos centros agroindustriais .
Os produtos de origem animal, junto com o milho, são com certeza as soluções para diminuir a escassez de alimentos no Brasil e no mundo, pois se necessita - e muito - de proteína animal barata e a energia dos carboidratos para este propósito.
Sem dúvida o pessoal da agricultura já esta providenciando a sua parte, aumentando e muito a produtividade e a qualidade de seus produtos, diluindo assim seus custos. Fica somente para a pecuária de corte fazer sua parte, fornecendo animais produzidos com alta tecnologia e produtividade a um custo baixo, pois o tempo do preço da carne alto, e do consumidor com potencial de compra acabaram. Produzir carne barata sim, pois um grande filão consumidor de carne com certeza não prioriza beleza e apresentação; prioriza, sim, qualidades básicas e simples da carne bovina.
Gostaria eu, como filho e neto de pecuaristas, de ver a pecuária de corte de volta ao seu lugar de merecimento, como uma atividade que cumpre seu papel social e econômico no nosso país.
O autor é médico-veterinário, agropecuarista e confinador no Estado do Paraná





