O ARTIGO
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 20 de abril de 2007
Celso de Almeida Gaudencio 
A responsabilidade com seus iguais urbanos é o ponto forte dos produtores rurais brasileiros. A magia da produção de alimentos, no entanto, é contraposta pela parcialidade das normas legais vigentes. As regras impostas apresentam sintonia com a contravenção, exclusão da liberdade e dos direitos, sujeitas à contundência de leis parciais, sem embasamento filosófico ou científico, e sob o signo da imprudência.
A quem interessa o caos ou a desestabilização do meio rural? Como reverter esse quadro e atender aos anseios daqueles que produzem no campo? O que parece é que algo de muito errado o produtor de alimentos está fazendo na condução do empreendimento.
Exemplo de incoerência são as exigências de índices, como que metas que o produtor tem que atingir, para comprovar a produtividade da terra. Estes índices têm em seu bojo artificializar a produção pelo uso excessivo de insumos altamente tributados ou importados, distanciando mais da produção natural de alimentos. Da mesma forma, as normas ambientais não consideram a atividade pastoril como bioma ecológico de proteção e de melhoria ambiental. A preocupação é concentrada no arroto do boi, e daí mais um questionamento: a quem está incomodando o enorme rebanho brasileiro?
É comprovado que gramíneas perenes usadas como pastagem, constituem-se recurso vegetal renovável e que influem na melhoria da capacidade produtiva do solo - especialmente quando conduzida de forma extensiva - pela agregação física, incremento de material orgânico, aumento da capacidade de troca catiônica, reciclagem de nutrientes e aumento da atividade microbiana do solo que promovem. Sabe-se ainda que, na condução da pastagem, quantidades ínfimas de produtos químicos são usadas, tornando-a uma atividade ecologicamente limpa, e, portanto, correta. Contudo, a pastagem não é considerada como área de proteção ambiental que deveria ser descontada do percentual exigido de reserva legal pela legislação brasileira.
Afinal, chega-se ao cúmulo de termos de eleger o que seja mais importante: o ser humano ou a capivara? No caso de ser considerada a capivara, como fica o proprietário de terra ou a produção de alimentos diante do pressuposto? Sabemos que tudo é importante no nosso meio. A inversão dos valores, infelizmente, parece nublar o discernimento de alguns no poder. Considerar mais importante as árvores, a fauna, e deixar para um segundo plano o homem, certamente constitui um erro de conclusão.
Se confrontarmos esta ótica com a região da Mata Atlântica, é uma incoerência lá estarem as grandes cidades, as estradas, hidroelétricas, indústrias, atividades rurais e empregos. Não deveria, então, ter permanecido desocupada, no seu estágio original? Sabe-se que a sua ocupação é fruto do crescimento populacional acima do previsto. Se houvesse uma correção deste quadro, deveria ser iniciada entre outros, pela extinção das palafitas ribeirinhas e pelos desassoreamentos de rios, e nunca pela área de produção rural, bioma tecnicamente planejado.
Faz-se necessário mudar o foco da questão, definindo a importância da ocupação destas áreas em vista da necessidade da produção de alimentos. O Brasil deve se preparar para abastecer uma população de quinhentos milhões de habitantes, ampliando sua responsabilidade na prevenção da fome. Enquanto a poluição causada pelas chaminés e escapamentos dos automóveis persistir, será necessário de enorme floresta para a obtenção do equilibro ambiental, diminuindo o espaço para produção de alimentos, e dessa forma, derruindo o encanto da produção rural.
CELSO DE ALMEIDA GAUDENCIO é pecurista em Londrina


