O agricultor profissional
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 27 de julho de 2001
Amélio DallAgnol 
Apesar da excelente colheita realizada na última safra, o agricultor brasileiro não tem motivos para comemorar este 28 de julho - o seu Dia Nacional - pois os custos de produção da agricultura subiram na mesma proporção que caíram os preços de venda dos produtos que colheram.
Com o mercado em baixa e privado dos subsídios e do protecionismo que o Estado oferecia até muito recentemente - que mais contribuíram para perpetuar práticas agrícolas ineficientes e agricultores idem, do que para apoiar o desenvolvimento do agronegócio brasileiro - não resta outra alternativa ao agricultor de hoje, que a via da eficiência produtiva para aceder e competir no contexto dos novos mercados globalizados e exigentes por qualidade.
Ser competitivo no atual cenário exige utilizar mais insumos intelectuais e menos insumos materiais, produzindo mais com menos custos e agregando valor aos excedentes comercializáveis, vendendo-os melhor, se não ao consumidor final, ao intermediário mais próximo deste.
Não está correto o procedimento que, via de regra, adotam os pequenos e médios produtores rurais, na aquisição dos insumos e na comercialização das suas safras. Quando compram os insumos, o fazem no varejo, utilizando o último elo da intermediação e quando vendem, fazem o contrário: comercializam a produção sem valor agregado, entregando-a ao primeiro elo da intermediação. O lucro fica quase todo com os intermediários.
Seria desnecessário alertar que, para enfrentar com sucesso esse difícil cenário de competição acirrada e lucros apertados, o produtor rural moderno precisa ser um profissional da agricultura, um agricultor de verdade, dedicado ao ofício e preocupado com a busca permanente da produtividade e da qualidade máximas, o que só consegue com o uso intensivo do principal insumo da competitividade: a tecnologia. Não apenas a tecnologia relacionada com a produção, mas, também, as tecnologias relacionadas com a gestão da propriedade, são capazes de auxiliar o agricultor a tornar-se mais competitivo adquirindo noções básicas de administração rural, a organizar-se cooperativamente, a eliminar perdas na colheita e na pós-colheita, a agregar valor e qualidade aos excedentes comercializáveis, assim como, a acabar com as ociosidades de máquinas e equipamentos, que só fazem crescer os custos da produção.
A moderna agricultura já não cede espaços para produtores improvisados e aventureiros, que incursionam na área como curiosos ou especuladores de uma atividade que desconhecem e que a ela, tampouco, querem se dedicar. O relativo êxito que tiveram, em passado recente, foi produto dos subsídios e do protecionismo públicos, práticas que o Estado finalmente abandonou, pressionado pela nova sociedade que surgiu da economia de mercado e que se nega a dar preferência a produtos brasileiros, quando isso implica pagar um custo de ineficiência. O cidadão moderno é insensível ao fracasso dos patrícios que não conseguem competir no mercado, porque são ineficientes, preferindo investir o seu dinheiro em produtos que apresentem a melhor relação entre preço e qualidade, não importando o país de sua origem.
No entanto, para que pequenos e médios produtores rurais consigam modernizar e diversificar a sua produção e sobreviver com sucesso na atividade agrícola, que é o que sabem e gostariam de continuar fazendo, necessitam da orientação e do apoio técnico do Poder Público. Ao Estado Social compete essa tarefa, de vez que o Setor Privado se move por interesses econômicos, que o desobriga de assumir essa responsabilidade.
O autor é pesquisador Embrapa Soja


