O agricultor em tempos de fartura
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sexta-feira, 21 de março de 2008
Amélio Dall'Agnol eFernando Adegas 
A grande maioria dos produtores brasileiros está rindo à toa. Assim também estiveram em 2003 até meados de 2004, quando a alegria acabou e só está retornando agora. A causa desta euforia está nos altos preços dos produtos agrícolas: a soja está valendo o maior preço de sua história, o mesmo acontecendo com o preço do trigo e do milho. A carne de frango e de porco, que nada mais é do que milho e soja transformados, também está batendo recordes de preços altos. O dinheiro da comercialização da produção do campo está enchendo o bolso do feliz agricultor, após três anos de carestia.
Os vendedores de insumos, máquinas e implementos agrícolas estão igualmente eufóricos, pois receberão mais pelo crescimento das vendas e, melhor, receberão dívidas atrasadas de vendas realizadas no período da carestia (seria prudente que não fossem oportunistas, aproveitando o momento para elevar abusivamente os preços, como já o fizeram no passado). Na verdade, toda a sociedade está-se beneficiando desse bom momento da agropecuária, pois representa mais dinheiro circulando pela economia, o que gera impostos e empregos.
Mas segundo ensina a sabedoria popular: tudo o que sobe, desce. Não foi assim em 2004? Em abril daquele ano o preço da saca de soja ultrapassava os R$ 50,00/saca, era um preço excepcional, mas muitos produtores guardaram a sua soja super valorizada e a venderam tempos depois por muito menos. Estamos vivenciando momento semelhante. Será que o produtor aprendeu a lição?
E m 2005 e 2006 encontramos muitas áreas abandonadas, mas que haviam sido cultivadas em 2004. Estavam abandonadas, não por causa dos baixos preços da soja, mas porque o produtor não teve dinheiro e nem crédito para efetuar o plantio, apesar dos excelentes lucros que tivera nos anos anteriores com a comercialização da soja em alta.
E o que havia o produtor feito com os lucros dos bons preços das safras anteriores? Certamente os havia comprometido na compra de mais terra, máquinas e veículos, assumindo compromissos futuros impagáveis, na eventualidade de o mercado desabar. E foi o que aconteceu.
É uma temeridade comprometer hipotéticos ganhos futuros, baseado nos bons preços do momento, não considerando a possibilidade de uma frustração de safra ou de uma situação de mercado desfavorável. Diz o ditado que depois de uma tempestade vem a bonança. Mas pode, também, acontecer o contrário.
Dizem que não se deve dar conselhos a quem não pediu, mas vamos dar assim mesmo, no entendimento de que o produtor, na euforia dos bons resultados da safra, se esqueceu de pedir. É o seguinte: considerando que o mercado oferece inúmeras opções de comercialização da safra, incluindo a venda antecipada com preços pré-fixados, porque não aproveitar momentos de mercado em alta para fixar os preços de uma colheita futura? Vender bem pode render mais dividendos do que produzir bem.
A propósito, senhor produtor, porque, ao invés de comprar mais terra, você não investe em alta tecnologia, buscando maior produtividade na terra que já é sua e colhendo, como resultado, o mesmo, mas numa área menor, sem exagerar no uso dos insumos agrícolas, porque isso não é alta tecnologia.
Produtor, a história se repete, só não sabemos com que frequência. Se bem que há uma perspectiva bastante sólida de manutenção dos atuais bons preços por um longo período ainda, de vez que as causas que determinaram os atuais altos preços são muito diferentes das de 2003/4, seria bom não confiar demasiadamente na bola de cristal dos analistas de mercado, porque eles nunca erram: se o mercado cair e eles previram a queda, são gênios; se acontecer o contrário, terá sido porque eles advertiram e medidas corretivas foram tomadas com base nessas advertências.
AMÉLIO DALL'AGNOL E FERNANDO ADEGAS são engenheiros agrônomos e pesquisadores da Embrapa Soja.


