Novos caminhos: mudança de perfil
Judas Tadeu Grassi Mendes, Ph.D.(*)
Evidências de problemasApesar de produzir um quarto da safra brasileira de grãos e ser o principal Estado agrícola, o Paraná apresenta problemas na sua agropecuária; se não vejamos:
a) Há uma década a produção de grãos do Estado está estagnada em, no máximo, 17 milhões de toneladas/ano.
b) A área cultivada (incluindo a de trigo e excluindo a de pastagens), que já foi de 8,5 milhões de hectares no início dos anos 80, está atualmente ao redor de 7,3 milhões de ha, ou seja, a redução de área é superior a um milhão de hectares.
c) O número de estabelecimentos rurais, que era de 554 mil em 1970, caiu para 467 mil em 1985 e para cerca de 370 mil atualmente, ou seja, ao longo dos últimos 27 anos ‘‘desapareceram’’ aproximadamente 184 mil propriedades (pequenas, em sua grande maioria). Isto significa dizer que, nesse período de quase três décadas, a cada dia útil mais de 20 propriedades deixaram de existir.
d) Da área cultivada com grãos (7,3 milhões de ha), mais de 5 milhões de hectares (ou seja, aproximadamente 70%) concentram-se em apenas dois produtos: milho (verão e safrinha) e soja.
e) Comparando-se com a área cultivada em 1980, a queda de área plantada no Paraná em 1997 teve os seguintes percentuais: 80% no algodão (isto é, a área de 1997 foi apenas 20% da área em 1980); 80% no café; 77% no arroz; 40% no trigo e 31% no feijão.
f) A produtividade média (rendimento) de milho, historicamente o principal produto em área do Estado, é de apenas 3.200 quilos por hectare, embora o rendimento médio dos produtores da Batavo e de Entre Rios, cujos solos não estão entre os melhores paranaenses, seja superior a 7.000 kg/ha.
g) Um produtor de milho com produtividade de 55 sacas/ha (a grande maioria ainda utiliza o sistema tradicional) tem um custo médio de mais de R$5,00 por saca. Ao preço médio R$7,00/sc (na média dos últimos 5 anos), o lucro por saca é inferior a R$2,00/sc, ou seja, o lucro por hectare é de pouco mais de R$100,00. Admitindo-se que ele cultive 5 hectares de milho (a grande maioria está nesta faixa), seu lucro total nos cinco hectares seria levemente superior a R$500,00, o que daria um lucro mensal ao redor de R$85,00, considerando-se um período de 6 meses entre o plantio, a colheita e a venda deste cereal. Daí a pergunta: como sobreviver com um lucro tão baixo?
h) O café, que ocupou 2 milhões de hectares no início dos anos 60 e mais de 1 milhão de hectares no começo dos anos 70, utiliza atualmente apenas 150 mil ha. Assim, de primeiro produtor nacional, estamos agora na quarta posição.
i) O Estado do Paraná é importador (de outros Estados e do Exterior) de frutas e hortifrutigranjeiros, embora tenha condições edafo-climáticas favoráveis para ser até um exportador líquido. A propósito, a questão das frutas é uma verdadeira vergonha nacional: (excluindo-se a laranja) o Brasil exporta apenas 250 milhões de dólares por ano, enquanto o Chile vende no Exterior mais de US$1,5 bilhão e os Estados Unidos mais de US$8 bilhões (sendo que a grande maioria provém da Califórnia, um Estado onde predomina o deserto).
Alternativas: café e fruta Para os pequenos agricultores, cultivar 5 hectares de milho é inviável, porém se for de café ou de frutas (por ex: maçã, pêssego e pêra), a situação muda completamente. Exemplos:
a) Se esse produtor estiver localizado acima do Paralelo 24 e cultivar 3 hectares de café adensado (6.700 pés/ha), sua produtividade média pode ser de 65 sc/ha, a um custo médio de R$50,00 por saca. Ao preço médio de R$130 a saca (média dos últimos 5 anos), esse produtor terá um lucro por hectare de R$5.200,00. Nos três hectares, seu lucro seria de R$15.600,00, o que corresponde a uma renda mensal de R$1.300,00 (que é igual a 10 salários mínimos). Em outras palavras, ele se viabiliza econômica e socialmente.
b) Se sua propriedade se situar abaixo do Paralelo 24:
1- A maçã passa a ser uma excelente opção econômica (o Paraná produz apenas 5% da produção brasileira, pois SC e RS respondem por cerca de 90%. Além disso, o Brasil é ainda um importador líquido desse produto, tendo gasto no biênio 1995-96 US$87 milhões de divisas por ano em importações de maçã da Argentina, Chile e EUA). O custo médio de produção é de R$190 a tonelada e o preço recebido é de R$390/t (média do período 1990-97), o que corresponde a um lucro de R$200 por tonelada. Considerando-se uma produtividade de 25t/ha, o lucro por hectare é de aproximadamente R$5.000,00 (ou seja, quase 50 vezes o lucro com milho do produtor tradicional). Considerando-se o investimento de R$6.000,00 por hectare, pode-se dizer que o Pronaf Investimento (cujo valor por produtor é de até R$15 mil) pode ser suficiente para implantar 2,5 hectares, que equivalem a um lucro anual de R$12.500,00, ou aproximadamente um salário mensal superior a hum mil reais (ou seja, 7,7 salários mínimos).
2- O pêssego pode ser outra ótima alternativa econômica. O Paraná produz menos de 5% da oferta nacional, e o Brasil é também importador (da Grécia, Argentina, Chile e EUA) tanto de fruta fresca como, principalmente, de pêssego em calda. O Paraná tem apenas 1.050 produtores de pêssego, que respondem por apenas 15% do total comercializado pelas Ceasas/PR. Em 1995, O Brasil importou o equivalente a US$34 milhões.
3- A pêra é outra fruta com grande rentabilidade, e a produção brasileira não atende a demanda interna, sendo o Brasil um grande importador. Na realidade, pêra é a fruta com maior volume importado pelo nosso país. Em 1996, o País importou o equivalente a US$98 milhões. Destaque-se que, após a implantação do Plano Real, tem havido um grande aumento no consumo de frutas de um modo geral.
Cabe ressaltar que a área de grãos, que tradicionalmente se concentrou na região Sul, está se deslocando para as novas fronteiras, onde há grandes possibilidades de incorporação de extensas áreas cultivadas, o que permite viabilizar essa atividades, uma vez que sua rentabilidade por hectare é baixa, mesmo com elevada produtividade.
A mudança de perfilOs dados acima expostos mostram que é preciso repensar a agropecuária paranaense. É praticamente impossível o pequeno produtor sobreviver com grãos, mesmo se ele vier a adotar novas tecnologias. Daí, a necessidade de mudança do perfil, o que significa: sair dos grãos e ir para outras alternativas como café adensado e frutas, por exemplo, que geram retornos relativamente elevados, ou seja, no mesmo hectare é possível gerar até 50 vezes mais renda do que mantendo o atual sistema tradicional de produção de grãos.
Parece claro que ‘‘como está não dᒒ! É função e responsabilidade do setor público (no caso, a Seab-PR, e a Emater, em particular) assumir esta postura de discutir os caminhos da sua agropecuária, sob pena de continuarmos a assistir ao desaparecimento de mais de 20 propriedades rurais por dia, no Paraná.
O autor é Ph.D. em Economia e Agribusiness pela Ohio State University; autor do livro ‘‘Economia Agrícola’’; foi professor titular da UFPR; é professor e diretor da FAE/CDE. E-mail: [email protected].

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