Altamente poluentes, os dejetos da suinocultura contaminam solos, lençóis freáticos e rios quando são descartados na natureza sem tratamento. Estudos comprovam aumento na incidência de doenças como hepatite, câncer e alergias na população de grandes centros produtores de suínos, reforçando a necessidade de controlar a poluição.
A informação é do engenheiro agrônomo e doutor em zootecnia Carlos Cláudio Perdomo, pesquisador da Embrapa Suínos e Aves em Concórdia (SC). Desde 1994, a instituição desenvolve trabalhos para oferecer alternativas de tratamento que atendam às exigências da legislação ambiental.
Em abril deste ano, foi apresentado o Sistema de Controle da Poluição e Valorização de Dejetos Suínos (Sidal/Embrapa). A tecnologia acrescenta novidades ao processo conhecido por Sistema UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), que já é utilizado e cujo maior problema consiste na exigência de grandes áreas para instalação de lagoas de tratamento.
Utilizando produtos químicos, o novo sistema acelera o processo de degradação da matéria orgânica, diminuindo em 50% a ocupação de áreas. Segundo Perdomo, também agrega vantagens como maior eficiência na remoção de poluentes e patógenos e alta concentração de nutrientes no lodo, aumentando o valor agronômico dos dejetos resultantes.
Mais Simples No Sistema UFSC, o processo de tratamento começa com a decantação dos dejetos, quando os resíduos sólidos são separados e armazenados para uso agronômico. De acordo com o pesquisador, esse método permite maior concentração de nutrientes com relação ao sistema convencional, valorizando o material que é reutilizado na lavoura.
A parte líquida é tratada em um sistema que exige vários tipos de lagoas. O início do tratamento começa nas lagoas anaeróbias, onde os dejetos ficam até por 50 dias. Com no mínimo três metros de profundidade, elas reduzem em 85% a poluição orgânica, mas são pouco eficientes na eliminação de nutrientes como fósforo e nitrogênio, que se tornam poluentes nessas condições.
Essas substâncias são retiradas na lagoa facultativa, de menor profundidade. Após essa fase, o líquido é filtrado na lagoa de aguapé, resultando em água que pode ser utilizada para limpeza da granja.
Paulo informou que essa alternativa exige investimento de R$ 60 por matriz instalada no rebanho, com impacto de R$ 0,08 por quilo de suíno no mercado. Segundo ele, o sistema UFSC é simples, sendo indicado para pequenos e médios produtores. Ele acredita que a adesão de grandes criadores é inviável pela escassez de áreas. ‘‘Essa faixa de produtores tem muitos animais e poucas terras’’, disse.
Mais TecnologiaPara preencher essa lacuna, foi desenvolvido o sistema Sidal/Embrapa, que utiliza tecnologia mais elaborada. Nesse processo, os dejetos vindos da granja passam por uma peneira que separa material de alto valor nutricional para ser aproveitado como substrato de ração. ‘‘A prática permite recuperação de 1% do material, o que representa 0,3% do volume total dejetos, que podem ser comercializados por até R$ 0,10 o quilo’’, disse.
A parte líquida resultante é enviada para um equalizador de vazão, responsável por dosar a quantidade de material que vai para a lagoa aeróbia. Nessa fase, os dejetos recebem uma solução biológica catalizadora que acelera a degradação.
Na lagoa, sofrem fermentação de forma acelerada, o que permite reduzir em 50% a área necessária para instalação da estrutura de tratamento. Logo após, utiliza-se o bioforculador, que introduz oxigênio para manter as partículas de resíduos em suspensão. Na fase final dessa etapa, adiciona-se um precipitador químico que as sedimenta.
Por fim, um aparelho chamado de dalscreener retira a parte sólida que ainda resta dos dejetos, correspondente a 3% do volume inicial. Assim como no sistema UFSC, a água resultante é filtrada e pode ser utilizada na lavagem da granja. O lodo produzido, ressaltou Perdomo, tem alta concentração de substrato e alcança bom valor comercial, em torno de R$ 16 por metro cúbico.
Ele acrescentou que o sistema tem custo de R$ 180 por matriz instalada. ‘‘Por isso, só é adequada para propriedades com mais de 400 matrizes’’.
LegislaçãoDe acordo com Perdomo, a suinocultura é responsável por 60% da poluição relativa a dejetos animais. ‘‘O restante é proveniente da pecuária e da avicultura, que também precisam de controle’’, explicou.
O índice de demanda bioquímica de oxigênio (DBO) resultante dos dejetos de suínos sem tratamento é de 18 mil mg por litro. Pela lei, o produtor tem que reduzir esse índice para 60 mg/litro antes de descartar os resíduos. ‘‘Dependendo do rio para onde os dejetos serão enviados, a redução deve ser ainda maior.’’
As infrações consideradas graves podem ser punidas com multa e até interdição da granja. ‘‘Mas os órgãos fiscalizadores têm agido com bom senso, oferecendo tempo para os produtores se adaptarem’’, disse.
Ele acrescentou que os suinocultores das grandes regiões produtoras demonstram sensibilidade com relação ao problema, mas muitas vezes não conseguem controlar a poluição por falta de condições. ‘‘É importante disponibilizar recursos para incentivar a adesão’’, acredita.
Outro problema é a falta de equipamentos e mão-de-obra especializada. ‘‘A tecnologia exige dimensionamento adequado, mas há poucas pessoas habilitadas a executarem o projeto, além de reduzido número de máquinas disponíveis no mercado.’’

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