Largamente utilizada no melhoramento genético de plantas, a biotecnologia é um conceito amplo que envolve todas as técnicas de manipulação de seres vivos, e as novas técnicas ainda são pouco conhecidas pela maior parte da população. Na agricultura brasileira, a técnica mais utilizada para produzir espécies com melhor potencial produtivo e comercial é o chamado melhoramento genético convencional, que resulta em variedades com características diferenciadas. Outra possibilidade de modificar as plantas com o objetivo de melhorá-las é através da engenharia genética. Nesse caso, os alimentos resultantes da modificação são os polêmicos organismos geneticamente modificados (ogms), ou simplesmente transgênicos.
Mas afinal, qual a diferença entre o melhoramento convencional e a engenharia genética? Segundo o pesquisador Francisco Aragão, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia em Brasília, engenharia genética é o braço da biotecnologia que trata da manipulação do código genético dos seres vivos. ‘‘Significa alterar sequências de DNA e fazer novas combinações dessa sequência’’, esclareceu o especialista. Através da engenharia genética, é possível introduzir genes de determinados seres vivos em outros seres vivos que jamais cruzariam naturalmente.
Cruzamentos
O melhoramento convencional, por sua vez, difere da engenharia genética porque transfere genes de uma planta para outra através de cruzamentos sexuais. ‘‘Tem que haver compatibilidade sexual entre as espécies, são modificações possíveis de acontecerem na natureza’’, disse.
Outro termo largamente divulgado atualmente e que causa confusão é a clonagem. O pesquisador esclareceu que essa técnica diz respeito à reprodução à partir de um único indivíduo, mas não se trata de engenharia genética porque não há modificação da sequência de genes. ‘‘Quando originamos outra planta a partir de um galho, praticamos clonagem’’, disse, complementando que as árvores de uma plantação de eucaliptos, por exemplo, são clones porque foram originadas a partir de uma única planta.
Exemplo
Quando um pesquisador cruza uma espécie de feijão selvagem resistente a determinado vírus com uma espécie de feijão comercial que não possui essa característica, para torná-lo resistente ao organismo, está praticando melhoramento convencional. O feijão resultante não é transgênico porque não houve a manipulação de genes.
Se por outro lado o pesquisador quisesse transferir esse mesmo gen para a soja, por exemplo, teria que praticar a engenharia genética, pois as duas espécies não se cruzam na natureza. ‘‘Nesse caso, a soja resultante seria transgênica’’, informou. Para transferir o gen para a soja, o cientista teria que identificá-lo, estudar sua função, saber a sequência do DNA, isolá-lo e depois transferí-lo.
Também é possível transferir genes de animais para plantas ou ainda criar animais transgênicos. Segundo Aragão, os projetos de pesquisa mais avançados nesse sentido visam desenvolver tilápias que crescem oito vezes mais. ‘‘Mas ainda não existem animais transgênicos liberados comercialmente’’, disse.
Transgênicos no mundo
No Brasil, o cultivo comercial de organismos geneticamente modificados é proibido (ver texto ao lado). Países como o Canadá, a Argentina e os Estados Unidos, porém, já plantam, consomem e exportam esses produtos. ‘‘Quando compramos um produto importado que utiliza soja, há grande possibilidade de ser transgênica, pois esses países possuem grandes áreas dessa cultura e não separam a transgênica da convencional’’, comentou.
Francisco Aragão esclareceu que o maior risco oferecido pelos transgênicos é a alergicidade. ‘‘Se inserimos uma proteína de camarão num tomate e uma pessoa alérgica ao comarão consome esse tomate, pode desenvolver alergia’’, afirmou. Caso os ogms sejam liberados no Brasil, uma das soluções para esse problema é fazer constar no rótulo do alimento a informação de que é transgênico e o tipo de proteínas que contém. Aragão, porém, considera complicado proceder dessa maneira. ‘‘Os agricultores trocam sementes entre si, é muito difícil de controlar’’, argumentou.
Para ele, o melhor caminho é haver uma regulamentação que garanta alimentos seguros para serem consumidos em dieta normal. Segundo o especialista, antes de liberar o produto as comissões de segurança devem analisar se ele não causará danos ambientais e à saúde humana. ‘‘Se a instituição for séria, como é o caso da CTNbio no Brasil, não haverá mais riscos que os oferecidos por outros alimentos. Segurança absoluta não existe em nemhuma tecnologia’’, analisou.

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