Novas pragas preocupam produtores
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de dezembro de 1996
Cristina Côrtes 
Além da lagarta e do percevejo, inimigos tradicionais da cultura da soja, os produtores estão enfrentando novas pragas em diversas áreas do Paraná, que chegam a causar perdas totais das lavouras. São pequenos animais que se desenvolvem no solo, como caracóis, lesmas, piolhos-de-cobra e cochonilhas.
A informação é do pesquisador Flávio Moscardi, do Centro Nacional de Pesquisa de Soja, da Embrapa. Ele alerta sobre a dificuldade de controle destas pragas quando a lavoura já está instalada.
As condições de solo nas áreas de plantio direto, com temperatura mais baixa, sombra da palhada e umidade, favorecem a proliferação dessas pragas. Elas atacam as sementes e também a soja ainda pequena, comprometendo o estande (padrão) da lavoura, e assim a produtividade.
Retorno ao convencional Uma das recomendações da pesquisa para enfrentar esse problema é retornar ao sistema convencional, pois a prática da gradagem expõe os animais ao Sol, reduzindo naturalmente suas populações. Grandes infestações já foram registradas na região de Campo Mourão, onde foram encontrados 200 caracóis por metro quadrado.
Na região de Cornélio Procópio a infestação foi de piolho-de-cobra. Segundo o agrônomo da Emater, Manoel Pessoa de Lira, a incidência este ano variou de 15 a 20 animais por metro quadrado. O técnico lembra que no ano passado várias lavouras com plantio direto tiveram problemas, causando perdas de até 50%. O piolho-de-cobra ataca a semente e compromete o estande, dificultando o replantio. Ele ataca nos meses de outubro e novembro, e depois desaparece com a elevação de temperatura, explica Manoel.
O pesquisador Flávio Moscardi diz que tem recebido muitos telefonemas de todo o Estado do Paraná, e de outras regiões do País, principalmente do Centro-Oeste, onde o plantio direto é bastante utilizado. O agricultor deve ficar atento a estes novos problemas, porque na safra passada já foram registradas perdas totais em algumas lavouras.
Como medidas para conter essas infestações são recomendados o tratamento das sementes e a rotação de culturas, apesar da pesquisa ainda não ter estudos concluídos a este respeito. A recomendação mais segura mesmo é o retorno periódico ao plantio convencional. A maioria dos casos ocorrem a partir do quarto ano seguido no sistema de plantio direto.
Aumenta uso de veneno Agrônomos da Embrapa e da Emater estão preocupados com o aumento do número de aplicações de inseticidas para combater pragas tradiconais da soja. De acordo com levantamento feito pela Emater, nos últimos anos as aplicações têm aumentado sem necessidade.
Segundo Moscardi, o produtor tem feito aplicações mais cedo e precipitadamente. Na fase atual, quando a maioria das lavouras acha-se no estágio inicial de desenvolvimento, o pesquisador lembra aos produtores que é comum a presença de lagartas, mas isto não é indicativo para aplicação, porque a soja tem uma grande capacidade de recuperação, e um ataque agora não representa nenhum problema.
Um novo surto de lagartas deve ocorrer neste mês, quando o produtor precisa batero pano para contar o número de lagartas e decidir se é hora de aplicar agrotóxicos. Só há necessidade de aplicação quando o nível de desfolha atingir 30% ou mais, lembra Moscardi.
Outra prática que tem encarecido a cultura é que alguns produtores aproveitam a aplicação do herbicida pós-emergente, para jogar o praguicida químico ou o baculovírus na mesma operação, quando ainda não há necessidade.
Controle adequado A aplicação do baculovírus misturado com outros inseticidas tem sido uma opção bastante interessante, mesmo em situações de população alta, comenta Moscardi. A recomendação da dose é de 1/4 de veneno e o restante de baculovírus.
O pesquisador alerta que esta idéia de mistura tem sido distorcida por muitos
produtores que acabam colocando mais veneno do que o necessário, o que pode comprometer o equilíbrio e afetar as populações de inimigos naturais. Além da dose errada, também aplicam no momento errado. Como os preços dos venenos estão relativamente baixos, alguns mais baratos do que o próprio baculovírus, tem muito produtor que acaba exagerando na dose, observa o pesquisador.
Para evitar mais este problema, pesquisadores, técnicos das cooperativas, Emater e líderes rurais, estão participando de palestras para levar uma orientação mais completa para o produtor.
Ainda nesta primeira fase da soja, podem aparecer outros insetos como besouro, cascudinho e vaquinha. Mas, o pesquisador diz que mesmo se eles atarem as flores e as vagens, não há necessidade de aplicar veneno. A soja, normalmente, aborta 60% das flores e isto não altera a produção de vagens. Quando o ataque for na vagem, ela suporta uma perda de até 10%, compensando pelo aumento do tamanho dos grãos, explica.
Percevejo O percevejo, que é também uma praga importante na na fase mais adiantada da cultura da soja, pode aparecer nesta fase inicial, e não adianta o produtor pensar em combatê-lo agora, para evitar um possível aumento da população. Moscardi diz que o percevejo causa danos somente quando a planta está com vagem.
Os produtores e técnicos devem estar atentos para não fazer uma avaliação incorreta da incidência da praga. Normalmente, as vistorias nas áreas são feitas no início da manhã ou no final da tarde, quando os insetos sobem para o alto da planta e podem dar a impressão que são muitos. O mais seguro é confiar na batida de pano, que suporta a presença de até quatro percevejos. Este nível é seguro, mas é preciso cuidar das migrações de outras áreas já colhidas, para evitar surpresas, conclui Moscardi.
Com este cuidados, o produtor poderá reduzir em até 50% o custo das aplicações de veneno em sua área, além de estar contribuindo para um melhor equilíbrio do meio ambiente.


