Cláudia Barberato
De Londrina
De 25% a 30% das pessoas que hoje vivem no meio rural estão envolvidas em atividades não agrícolas. A informação faz parte do Projeto Rurbano, desenvolvido pelo Instituto de Economia Agrícola da Universidade de Campinas (Unicamp, SP).
Segundo dados do projeto, desenvolvido em 11 Estados brasileiros, o número de pessoas ocupadas com atividades agrícolas decresce anualmente em 2,2%, enquanto o número de pessoas ocupadas com atividades não agrícolas, no meio rural, cresce 2,5% ao ano.
Inversão no campo‘‘Na última década a agricultura registrou taxa negativa de ocupação agrícola, enquanto cresceram as atividades não agrícolas’’, revela José Graziano da Silva, um dos pesquisadores que participam do Rurbano. Segundo Graziano, professor da Unicamp, na década de 90 houve uma inversão na ocupação do meio rural.
‘‘Enquanto algumas pessoas foram para as cidades à procura de melhor fonte de renda, outras retornaram ao campo, buscando melhores condições de vida ou envolvidas em atividades que os pesquisadores chamam de não agrícolas’’, afirma.
As pesquisas desenvolvidas até agora no Projeto Rurbano foram divididas em duas fases: análise da população economicamente ativa e a questão da ocupação agrícola e não agrícola. Na fase inicial a principal conclusão foi que o emprego agrícola vinha caindo sistematicamente desde meados dos anos 80, mas a população rural ocupada (população economicamente ativa rural), ao contrário do esperado, vinha crescendo no mesmo período.
‘‘É como se houvesse uma compensação de perdas de postos de trabalho no setor agrícola pela criação de inúmeras novas atividades não agrícolas no meio rural’’, revela outro pesquisador do Rurbano, Clayton Campanho, da Embrapa Meio Ambiente.
Novas atividadesDa população economicamente ativa do meio rural, calculada em mais de 15 milhões pessoas, cerca de quatro milhões de pessoas estão ocupadas atualmente em atividades não agrícolas. ‘‘Por tudo isso, já não se pode caracterizar o meio rural brasileiro como estritamente agrário. E mais: o comportamento do emprego rural, principalmente dos movimentos da população residente nas zonas rurais, não pode mais ser explicado apenas a partir do calendário agrícola, nem da expansão/retração das áreas e/ou produções agropecuárias’’, analisa Graziano.
Há um conjunto de atividades não agrícolas, como a prestação de serviços, o comércio e a indústria, que respondem cada vez mais pela nova dinâmica populacional do meio rural brasileiro.
Queda de rendaDe acordo com José Graziano da Silva, a migração de atividades agrícolas para não agrícolas se prende à persistente queda de renda. Nos últimos 30 anos, a maior parte dos principais produtos agrícolas teve queda de 30% a 50%. O avanço tecnológico fez aumentar a produtividade e junto trouxe a competividade.
Além de famílias essencialmente agrícolas e não agrícolas, há uma nova modalidade de família no meio rural, a pluriativa, ou seja, uma família onde um dos membros mora no campo mas trabalha na zona urbana com renda superior à renda agrícola. ‘‘Essa dissociação entre local de residência e local de trabalho, que há muito já ocorreu nas cidades, é mais um indicador da urbanização dos campos brasileiros’’, analisa o pesquisador Campanhola.
Novo ramoA renda média de pessoas que vivem no campo e têm atividade agrícola só não é menor do que aquela que é paga para os serviços de empregados domésticos, mas perde para todos os outros tipos de empregos. A renda de atividades não agrícolas puxa para cima a renda média das pessoas que residem no meio rural.
De acordo com José Graziano, a família que mantém todos os membros trabalhando na agricultura tem a menor renda média. O fundamental, argumentam Campanhola e Graziano, é que as pessoas ocupadas em atividades agrícolas e residentes no meio rural têm hoje uma alternativa para aumentarem sua renda sem ter de se mudar para a cidade: mudar de ramo de atividade.
Enquanto as atividades agrícolas vêm reduzindo sistematicamente o nível de ocupação e gerando um volume de renda cada vez menor, as atividades não agrícolas no meio rural brasileiro vêm aumentando o número de pessoas ocupadas e propiciando uma remuneração significativamente maior do que as obtidas nas atividades rurais ligadas à agropecuária tradicional.
EstratégiasSegundo o professor da Unicampo, José Graziano, novas atividades no mundo rural, como as criações de escargôs, canários ou rãs, não podem ser chamadas de atividades agrícolas. ‘‘Profissionais como jardineiros e motoristas não podem ser chamados de atividades essencialmente urbanas. Eles servem aos dois meios’’, analisa.
Ele cita também o exemplo dos pesque-pague. Normalmente a atividade começa como produção e depois passa a ser uma prestação de serviços. O dono do pesque-pague monta um bar ou um restaurante, a freguesia aumenta e ele tem que parar de produzir peixes para ser vendedor de serviços, comprando o peixe de outro produtor. ‘‘A atividade de serviço passa a tomar tanto tempo que o dono do local tem que comprar peixe de outro produtor, para atender seus clientes’’, comenta Campanhola.
A criação de empregos não agrícolas nas zonas rurais é, portanto, segundo José Graziano, a única estratégia possível capaz de, simultaneamente, reter a população rural, muitas vezes pobre, nos seus atuais locais de moradia e ao mesmo tempo, elevar o seu nível de renda.

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