Nova visão Produtor mais perto da pesquisa
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de novembro de 2000
Cláudia Barberato De Londrina 
O desenvolvimento de tecnologias por parte da pesquisa e a aplicação ou readequação das técnicas já existentes devem atender toda a classe de produtores e não somente os de ponta, ou mais tecnificados, que têm maior acesso as informações por vários meios.
É preciso desenvolver uma abordagem mais participativa do produtor rural, opinando que tipo de pesquisa pode ser desenvolvida, afirma o pesquisador da área de sócio-economia da Embrapa Gado de Corte, de Campo Grande (MS), Ivo Martins Cezar.
O pesquisador desenvolveu seu trabalho de doutorado na área de Geração e Transferência de Informação para o processo de tomada de decisão do produtor. Ele acredita que o estreitamento dos laços entre pesquisa e produtor, pode melhorar a eficiência da atividade agrícola, especialmente no caso de pequenos e médios produtores.
Falhas no processoSegundo Ivo Cezar, hoje há muita falha no processo de transferência de tecnologia. Falhas na transferência de informações de pesquisas voltadas para o setor pecuário estão dificultando a absorção do conhecimento científico, e sua agregação ao conhecimento prático, por parte dos produtores rurais, afirma o pesquisador.
Uma das falhas, aponta o pesquisador, é que o produtor prefere o conhecimento informal ao formal. Normalmente o produtor prefere ouvir de uma pessoa de confiança como melhor direcionar seu negócio. Ele, o produtor, do mais tecnificado até o menos tecnificado, também gosta de ver no campo e discutir com os amigos a aplicação de tecnologias. O pesquisador, segundo Ivo Cezar, pode também tornar-se uma pessoa de confiança do produtor.
Canais de informaçãoHá muita diferença, alerta Ivo Cezar, de como a informação chega às pessoas no meio rural em relação ao meio urbano. Na zona urbana os canais de comunicação são as revistas especializadas, Internet, congressos, eventos, entre outros. Já na zona rural a informação chega, basicamente, pelas relações pessoais.
Ivo Martins disse que, apesar da televisão ser um dos únicos meios de orientação de alguns produtores, estes não tomam qualquer decisão sem antes consultar uma pessoa de sua confiança que, na maioria da vezes, não possui formação técnica.
Precisamos conquistar a credibilidade do produtor. Ainda existe uma resistência para com os centros de pesquisas. É preciso aprofundar ainda mais na questão de como os produtores desenvolvem o seu conhecimento e fazer com que os centros se tornem referenciais para eles.
Reformular açõesSegundo Ivo Cezar, ao longo dos anos, embora se tenha interesse de atingir os problemas reais da produção, instituições de pesquisa atenderam apenas produtores de ponta, que têm acesso às informações sobre tecnologias geradas pela pesquisa.
Outras das falhas apontadas por Ivo Cezar é que muitas vezes a tecnologia desenvolvida pela pesquisa não se ajusta devidadamente ao contexto sócio-econômico do produtor ou à realidade em que ele vive.
Ivo Cezar considera que a informação e a tecnologia são dois componentes de peso no agribusiness atual para que o produtor não seja alijado do processo de produção. Por um outro lado, os centros de pesquisas e instituições do gênero estão bastante distantes da maioria dos produtores.
O pesquisador calcula que hoje apenas 5% dos produtores rurais estejam em nível mais tecnificado e tenham acesso a tecnologia, com recursos para aplicá-la. Outros, mesmo com recursos, não vêem a aplicação de tecnologias como investimento e sim como gastos, o que reduz a possibilidade de aumento de rentabilidade do seu negócio.
Participação diretaDe acordo com o pesquisador é preciso o que ele chama de abordagem mais participativa do produtor rural, opinando que tipo de pesquisa pode ser feito. Não se vai transferir para o setor produtivo a responsabilidade, mas sim, numa parceria, ampliar e aproximar da realidade os trabalhos dos cientistas.
Uma das alternativas para conseguir essa aproximação, segundo Ivo Cezar, seria através de reuniões, para captar dos produtores suas dificuldades e dar continuidade ao processo de produção científica. A própria Embrapa Gado de Corte tem aumentado eventos como dias-de-campo para aproximar-se dos produtores. Técnicos da extensão rural também podem fazer essa aproximação.
Outra maneira, avalia Ivo Cezar, é adaptar exemplos como o que já existe na Argentina. Lá produtores em pequenas associações (10 no máximo) têm voz ativa junto aos centros de pesquisa.
Trabalho em grupoNo Brasil também há formação de grupos de produtores. Ele cita os exemplos do Paraná, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul. Esses produtores já fazem compras comunitárias, venda de produtos e adoção de tecnologias de produção semelhantes, mas ainda estão distantes dos centros de pesquisa.
No Norte do Paraná, em Rolândia, um grupo de produtores de leite se uniu desde o ano passado, para fazer compra de insumos, venda da produção e debates com técnicos. As reuniões são semanais e um passa para o outro novidades ou adaptações que têm sido feitas em suas propriedades, a fim de reduzir despesas e aumentar rentabilidade. No Mato Grosso do Sul também existem dois grupos de produtores atuantes.
Receitas localizadasO resultado da parceria entre conhecimento científico, técnico e prático, segundo Ivo Cezar, seria a solução para muitos problemas atuais. Os problemas podem ser os mesmos em termos tecnológicos, mas as soluções sempre serão diferentes.
As condições econômicas são diferentes de um produtor para outro. Não se pode mais trabalhar com receitas prontas, mas passíveis de adaptação. Deve-se levar em conta também o conhecimento empírico do produtor que pode muitas vezes ajudar a solucionar problemas, avalia o pesquisador.
A maximização de lucro, assegura, não deve ser mais o fator essencial na tomada de decisões da pesquisa. A união do conhecimento científico com o prático deverá tornar cientistas e produtores mais eficientes.


