Cristina Côrtes
De Londrina
Mercado de futuros agropecuários deve iniciar nova fase com a aprovação de medida que abre as negociações para investidores estrangeiros. A avaliação do assessor da Organização das Cooperativas do Estado do Paraná (Ocepar), Nelson Costa, sobre a internacionalização das transações de compra antecipada da produção agrícola no Brasil, é positiva. Segundo ele, a medida viabilizará a captação de recursos para financiar a atividade agrícola, a custos mais baixos.
Atualmente, o mercado agrícola brasileiro é baseado no produto físico e não há transações de papéis. A possibilidade de comercialização de contratos futuros com novos investidores, principalmente externos, abrirá o leque de opções de venda para o produtor. ‘‘Quando se tem mais opções de venda, normalmente pode-se alcançar melhores preços’’, diz Costa.
Novas opções‘‘Os recursos oficiais para agricultura são cada vez menores, e não vemos perspectivas de que esta situação se inverta. O produtor hoje já busca alternativas de financiamento que estão elevando muito o custo de produção’’, comenta Costa. Entre as alternativas utilizadas pelos produtores estão a compra financiada de insumos em lojas do ramo (para pagamento na safra), venda casada com indústrias e empréstimos normais. Segundo Costa,‘‘hoje não existe muita diferença entre os juros do crédito rural e o normal, e estas alternativas estão aumentando muito os custos de produção. A abertura de novas possibilidades de comercialização é bem vinda’’.
O Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou no início deste mês a Resolução do Banco Central que autoriza a internacionalização das transações antecipadas da produção. Segundo o ministro da agricultura, Marcus Vinicius Pratini de Moraes,‘‘esta foi uma decisão histórica que vai iniciar uma nova fase no financiamento da agricultura brasileira’’. A regulamentação da medida deve estar pronta em outubro.
Em termos de vendas futuras, o mais comum no Brasil na área de grãos é a atuação de algumas cooperativas que fazem negócios com as indústrias. As cooperativas têm um volume de grãos e conseguem mais alternativas de comercialização. Segundo Nelson Costa, o agricultor demorará um pouco para aderir ao mercado de futuros. ‘‘Não temos tradição neste tipo de mercado e os produtores, de maneira geral, não conhecem como funciona’’, comenta Costa.
BolsaPara o superintendente de mercados agrícolas da Bolsa de Mercadorias e Futuros de São Paulo (BM&F), Arnaldo Luiz Corrêa, a medida proporcionará um fluxo de negócios e de proteção no mercado brasileiro, e terá uma reflexo altamente positivo para o agronegócio. ‘‘O Brasil é um dos países mais importantes no mercado de produtos agrícolas, mas não forma preços e isto nos prejudica muito’’, comenta Arnaldo.
O analista de mercado cita, por exemplo, que quem forma preços para produtos como café e açúcar hoje é a Bolsa de Nova York, embora os Estados Unidos não produzam nenhum dos dois produtos. ‘‘Com a abertura do mercado aos investidores externos, temos certeza de que os negócios convergirão para cá, para o mercado de origem. E com as margens de proteção e risco gerenciado, os juros serão mais baixos para o produtor’’.
Arnaldo informou, ainda, que depois do anúncio da medida, a BM&F tem recebido inúmeras ligações de bancos e empresas estrangeiras interessadas em saber quando começam as novas operações. ‘‘Hoje o mercado agrícola, em países como os EUA, é considerado o mercado de menor risco e que atrai mais investidores, e isto deve acontecer aqui também no Brasil’’.
Ainda segundo Arnaldo, esta medida vai mudar, dentro de alguns anos, radicalmente o financiamento agrícola no Brasil. Ele reconhece que, para o produtor brasileiro, o mercado de futuros é uma coisa muito nova, e a BM&F tem realizado palestras e cursos para produtores e empresas difundir os mecanismos deste mercado.
LiquidezNagib Abudi Filho, presidente da Bolsa de Mercadorias de Londrina, também analisa positivamente a entrada de investidores estrangeiros. ‘‘Teremos mais liquidez no mercado e transparência e equilíbrio na formação de preços’’, comentou.
Segundo Nagib, no Brasil os preços na Bolsa de Mercadorias e Futuros de São Paulo oscilam facilmente, influenciados por qualquer demanda de mercado, porque a comercialização de futuros é restrita, com um volume muito pequeno. Diferente, por exemplo, da Bolsa de Chicago. ‘‘Não existe entidade ou empresa no mundo que manipule ou possa interferir em Chicago, porque os volumes comercializados são muito grandes’’, , observou.
Preços e riscosO que norteia a existência dos mercados de futuros é conseguir melhores preços e transferir riscos. Os mercados futuros podem fixar preços antes mesmo da colheita, como já se faz nos países desenvolvidos, como nos Estados Unidos, onde o mercado de futuros chega a negociar cinco vezes o volume da produção. Na Argentina, este percentual chega a 40% e no Brasil não atinge sequer 1% da safra.
O preço pago pelo consumidor por qualquer bem ou serviço oferecido é formado em parte pelos riscos de quem produz. Quando o mercado de futuros minimiza esses riscos, podem-se diminuir os custos. Esta é a filosofia que fez crescer este tipo de mercado em todo o mundo.
A história da negociação de futuros começou no início dos anos 1800 e está vinculada à fundação da Bolsa de Chicago e à comercialização de grãos no Centro-Oeste americano. Com o aumento da produção de grãos naquela região, o comércio foi se expandindo, com problemas de oferta e demanda, transporte e armazenamento. Por iniciativa de comerciantes da época, foi criada a Bolsa, que tinha por objetivo estabelecer um local onde compradores e vendedores pudessem se reunir para a troca de mercadorias.
Em pouco tempo os contratos de entregas futuras tornaram-se bastante populares. Os contratos permitiam aos compradores especificar a entrega de uma determinada mercadoria a um preço e data pré-estabelecidos.
De lá para cá, este mercado evoluiu muito e hoje existem contratos futuros para juros, ações, para produtos manufaturados e processados, mercadorias não armazenáveis, metais preciosos e moedas estrangeiras. Os especuladores assumem os riscos na esperança de obter lucros. Normalmente os vendedores querem obter o preço mais alto possível, enquanto os compradores querem o preço mais baixo. Os especuladores fecham a diferença entre as licitações e ofertas.

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