Uma cultivar de soja com melhor qualidade proteica. Trata-se da cultivar BRS-155, resultado de um projeto da Embrapa Soja, que visa o desenvolvimento de cultivares especialmente destinadas ao consumo humano, com baixos teores de inibidor de tripicina. A BRS-155 é uma das novidades apresentadas durante a 20ª Reunião de Pesquisa de Soja da Região Central do Brasil, realizada em Londrina de 4 a 6 deste mês.
A pesquisadora da Embrapa Soja, Mercedes Carrão-Panizzi, responsável pelo projeto, explica que o inibidor de tripicina é um fator antinutricional existente nos grãos de soja. O inibidor de tripicina impede que os organismos assimilem as proteínas da soja, se consumida em natura. ‘‘Essa nova cultivar foi desenvolvida com baixos índices desse fator. Na BRS-155, o teor de inibidor de tripicina é de 30 a 50% menor que as outras cultivares’’, explica. Mesmo com essa característica, os grãos da BRS-155 não dispensam o choque térmico antes do consumo.
GanhosA principal vantagem da BRS-155 é a redução dos custos de processamento para a agroindústria. Mercedes informa que para desativar o inibidor de tripicina é necessário o processamento térmico do grão. Com essa nova cultivar, o tempo de processamento é reduzido em até 50%. ‘‘Ou seja, gasta-se menos com energia, menos calor. Além disso, a proteína é protegida’’. A exposição dos grãos de soja por tempo maior à alta temperatura pode tornar a proteína insolúvel, comenta a pesquisadora. ‘‘Isso também dificulta a absorção pelo organismo’’.
A nova cultivar já foi testada por duas indústrias: a Taishi Food Inconporation, do Japão, e a Agro Nippo, de São Paulo. ‘‘A cultivar foi analisada para a produção de Natto (alimento muito utilizado pelos japoneses) e foi muito bem aceita’’. A BRS-155 está em fase de multiplicação de semente genética e deve estar disponível aos produtores de sementes na safra 99/2000. Além dos ganhos nutricionais, a cultivar produz grãos com sabor mais suave.
Na opinião do chefe geral da Embrapa Soja, José Francisco Ferraz de Toledo, a cultivar representa uma grande conquista da pesquisa, que vai ter reflexos positivos na sociedade. ‘‘O brasileiro consome muito mais soja que imagina’’. Ele explicou que cerca de 60% dos produtos alimentícios industrializados contêm algum subproduto de soja.
RecomendaçãoA BRS-155 foi indicada para recomendação durante a reunião de soja. Toledo qualificou o evento como um dos mais importantes fóruns da agricultura brasileira. ‘‘Daqui saem as tecnologias que vão beneficiar o produtor’’, argumentou. O evento reuniu mais de 450 pesquisadores e técnicos de instituições de pesquisa de 15 Estados brasileiros. ‘‘Toda a pesquisa está representada aqui’’, afirmou.
Os resultados da reunião serão publicados pela Embrapa Soja, nas ‘‘Recomendações Técnicas para a Cultura da Soja no Brasil Central -1998/99’’ e transferidos para os produtores através dos técnicos e extensionistas, que também participam do evento.
No encontro também foram discutidas técnicas conservacionistas. O presidente da Associação do Plantio Direto em Cerrados, Helvécio Mattanna Saturnino, apresentou a palestra ‘‘Integração agropecuária e semeadura direta: demandas da pesquisa’’. Segundo Saturnino, a área cultivada em semeadura direta no Brasil na safra 97/98 aumentou cerca de 100%, em relação à safra 95/96. Em 1995 cerca de 4,5 milhões de hectares brasileiros eram cultivados no sistema direto. Na safra 97/98, a estimativa é que essa área alcance 10 milhões de hectares. Nos Cerrados, esse número passou de aproximadamente 1,5 para 3,5 milhões de hectares.
Para Saturnino, esse aumento significativo da utilização da semeadura direta deve-se principalmente às vantagens econômicas do sistema. ‘‘O volume de combustível utilizado em um hectare de plantio convencional, é o mesmo utilizado para 1,4 hectare do sistema direto’’, exemplificou. Ou seja, só neste ítem a economia é de 40%.
Saturnino destacou ainda outras vantagens como facilidade operacional do sistema, redução significativa da utilização de agrotóxicos e fertilizantes, melhoria qualitativa ambiental, estabilidade na produtividade das culturas e melhoria nutricional do solo. O solo protegido evita a degradação e garante a sustentabilidade agrícola. ‘‘Nos Cerrados, principalmente, a recuperação dos solos degradados, através do plantio direto, também diminui a pressão sobre a abertura de novas áreas, preservando o meio ambiente’’, argumentou.

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