Imagem ilustrativa da imagem Nosso sítio em Pocinho


Morávamos em Sertaneja e, no final da década de 1950, nosso pai comprou um sítio em Pocinho, distrito de Barbosa Ferraz. Na época era difícil chegar até lá. Viajávamos o dia inteiro, um trecho de asfalto até Jandaia do Sul, muita estrada de terra e ainda havia a balsa no Rio Ivaí, entre São Pedro do Ivaí e Fênix.

Da estrada até as casas do sítio, era uma descida de uns 300 metros. A entrada era ladeada por uma grande plantação de imensos e altos pés de café que, para se fazer a colheita, usavam escadas. No sítio, também havia plantação de algodão, mamona, mandioca, horta, criavam galinhas, porcos, tinha até uma vaquinha de leite para alimentar as crianças do sítio. Plantava-se hortelã, porque na propriedade havia um alambique de onde se extraía o óleo que o papai trazia para a Fábrica de Balas Ouro Verde em Londrina e alguns vizinhos chineses que iam até o sítio comprar.

Era uma colônia formada por seis casas: duas para nossa família e as demais para uns parentes que lá trabalhavam e mais os colonos e, em especial, para uma pessoa amiga vinda de Mococa – a Ditinha, cujos pães assados em forno de barro eram uma gostosura!

Em janeiro de 1961, passamos as férias lá no sítio. Mudamos toda nossa vida. Ajudávamos a levar comida e café na roça e, enquanto esperávamos, íamos procurar tatuzinho nos pés de café. Quando encontrávamos, soprávamos, soprávamos o buraco e de lá, o bichinho saía correndo. Depois, brincávamos no terreirão, ajudávamos a rastelar o café para secar, vivíamos procurando "filipe" nos grãos de café. À noite, saíamos à procura de vaga-lumes. Para atraí-los, cantávamos: "Vaga-lume tem-tem, teu pai está aqui, tua mãe também..."

Aos sábados, o pessoal do sítio saía mais cedo da roça, tomava banho, pegava a carreta atrelada ao trator e todos íamos para o Pocinho passear. Uma vez por mês tinha missa, às vezes, quermesse, baile e quem animava era o motorista do nosso caminhão, o Olívio com sua sanfona. Nós, as crianças, voltávamos mais cedo; os mais velhos ficavam porque iam namorar. Foi um tempo bom!

Em 14 de agosto de 1964, o Pedrão, outro motorista do papai, estava levando uma família de Sertaneja para trabalhar no sítio. Na balsa, o caminhão caiu no Rio Ivaí com a família dentro. O motorista conseguiu tirar uma senhora idosa da cabine; morreram quase todos. Nesse ano, eu estudava interna no Colégio Santa Maria em Assis (SP), quando um empregado nosso foi lá me contar. Foi muito triste! Depois dessa lamentável tragédia, o sítio foi vendido.

Há alguns anos, quando papai ainda era vivo, fomos até lá visitar os nossos primos de coração. Tinham se casado, cada um com sua família, com seu pedacinho de chão, e o Olívio estava no seu sítio em Corumbataí do Sul e talvez continue animando as festinhas com a sua sanfona. E hoje, com as estradas asfaltadas, não se viaja mais o dia inteiro para chegar até Pocinho, distrito de Barbosa Ferraz.

IDIMÉIA DE CASTRO, leitora da FOLHA

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