Todas as manhãs, eu escuto à distância, o relinchar de um jumento. ''O jumento é nosso irmão'', cantava Luiz Gonzaga, num apelo contra a matança desses inocentes tão úteis. O jumento que ouço relinchar, me parece feliz, quando rincha forte. Às vezes não; às vezes é um rinchar sufocado, tentando, entre angústia e mansidão, falar com alguém que lhe faz falta. Será que é um solitário? Sem nenhum parente asinino, deve sentir saudades de quem lhe é caro. Animais têm sentimento. E como!
Até os humanos têm sentimento! Há uma tese controversa de que torcida organizada tem sentimento.
Eu ainda vou conhecer esse jumento. E vou dar-lhe parabéns. Menos pelos seus dotes, é claro. Mas porque ele - solitário ou feliz -, tem um endereço. O som do seu choro - ou seria cântico? - que é o seu grito de guerra, enfim, sua mensagem, vem sempre do mesmo lugar. Uma chácara?
Pensando melhor: grandes coisas não é porque me parece um lugar urbano. Para um quadrúpede, cidade não é legal, embora a cidade viva cheia deles. No Centro e no Centro Cívico; no clube e no Esporte Clube; no poder e na Praça dos Três Poderes; no boteco e no botequim, no restaurante e na mesa do restaurante... Só sei que o som emitido pelo jumento não incomoda a ninguém. Por favor.
Mas, onde quer se localize, mil vezes lá do que o abandono em que vivem os cavalos. Os cavalos dos catadores de papel, por exemplo. Estão sendo flagelados nas ruas, nos terrenos baldios cheios de cacos de vidro, à beira o riacho poluído, bebendo água do esgoto. Seu destino final? Um frigorífico bem perto de Londrina. Feliz Natal aos jumentos e cavalos, votos extensivos aos quadrúpedes que zombam no lombo deles.
H. Ramos Bezerra. Em família.
A conversa de hoje é para que cuidem mais dos nossos esquálidos cavalos da periferia. Tarefa que cabe aos muares do serviço público, que não atendem ao nosso apelo.

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