Os agropecuaristas brasileiros vêm cumprindo com a parte que lhes cabe: nossa carne é uma das melhores do mundo e ninguém duvida (nem mesmo os canadenses) da sanidade de nossos rebanhos. Porque então todo este barulho em torno da ‘‘vaca louca’’?
É certo que a disputa entre a Embraer e a Bombadier explica - em parte - a ofensiva do Canadá. Mas há outro setor em que o Brasil incomoda muito mais: a agropecuária. É aí que reside a origem de toda esta celeuma.
Nosso imenso e fértil território, onde de tudo se planta e onde o gado encontra pasto em abundância para se alimentar, nos dá uma imensa vantagem sobre muitos países do chamado 1º mundo. Rações animais, como as que causaram a ‘‘vaca louca’’ na Inglaterra jamais foram utilizadas por aqui. Nosso boi é o chamado boi verde!
A questão é que até bem pouco tempo nos preocupávamos apenas em abastecer o mercado interno, natural para quem tem uma população de quase 170 milhões de habitantes. Enquanto este gigante estava adormecido, nossas relações com os países ricos eram as melhores possíveis.
Quando finalmente resolvemos competir no mercado externo, adequando nossa produção aos padrões internacionais (a campanha para erradicação da febre aftosa é um exemplo) já não encontramos o mesmo ambiente amistoso.
A restrição imposta pelo Canadá é a prova do quanto o jogo lá fora é pesado. Nosso governo se comportou de forma ingênua, tímida. É nestas horas que nos damos conta da falta que faz um estadista. Alguém que conduza este País com mãos firmes, que realmente aposte no Brasil, que saiba traçar estratégias competitivas para aproveitar este imenso potencial econômico. E sobretudo, alguém que saiba reconhecer a grandeza do Brasil.
Infelizmente, somos levados a concluir que o próprio governo brasileiro não acredita no potencial do País. Depois de ser surpreendido pela atitude do Canadá, não conseguiu sequer esboçar uma reação firme e imediata. Passou dias inerte, como se estivesse descrente ou sem noção das consequências.
E pior: continuou pensando pequeno, como se fosse um pobre e miserável País. Como se o Brasil não tivesse condições de devolver o ataque com um tiro do mesmo calibre. Como se o Brasil fosse obrigado a engolir tamanha provocação por absoluta falta de poder de pressão.
Precisamos de um governante com perfil de estadista. Alguém que saiba colocar ordem dentro e fora de casa também. Porque como se não bastasse toda este embrólio internacional, aqui mesmo, no Brasil, ainda estamos sujeitos a ganância dos frigoríficos que tentam se aproveitar desta situação para aumentar seus lucros. Uma reação firme do governo, também evitaria que a turma dos aproveitadores de plantão entrasse em ação.
A melhor alternativa neste momento aos pecuaristas brasileiros é a retenção da carne, ou melhor, a decisão de comercializar apenas o necessário. Até que o Ministério da Agricultura e o das Relações Exteriores tomem as atitudes que o Canadá está merecendo, nossa classe precisa se unir e esperar um momento melhor para vender a produção.
Temos que acabar com esta farsa. Virar o jogo. Quem tem mais poder de pressão nesta história? Nós que importamos do Canadá muito mais do que vendemos? Vamos colocar sob suspeita o trigo que eles nos exportam. Quem garante que não são transgênicos? Vamos aumentar as tarifas de importação! Vamos vender para outros mercados como o asiático ou a Arábia Saudita.
Se não quiserem a nossa carne lá fora, é certo que vamos perder um mercado que estávamos começando a conquistar. Mas também é certo que aqui no Brasil continuaremos tendo carne suficiente e saudável.
Em um momento como este é fundamental a união da classe e principalmente muita cautela na hora de comercializar. Nós, agropecuaristas, enfrentamos problemas muito piores como a geada, a seca ou as chuvas em excesso e estamos acostumados à grandes batalhas. Vamos vencer esta guerra também.
O autor é pecuarista e Diretor Administrativo Financeiro da Sociedade Rural do Paraná, em Londrina.

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