Imagem ilustrativa da imagem Nos tempos do Ginásio



Em meados dos anos 1960 foi implantado o curso ginasial na cidade. Até então, o Grupo Escolar atendia até a 4ª Série. Foi construído um prédio novo, moderníssimo, de alvenaria, e nós o inauguramos. De Minas Gerais vieram algumas famílias com os professores, o novo diretor do Grupo Escolar e o diretor do Ginásio.

Com saudade lembro-me do meu professor de português Amancio de Souza que veio com a família toda, e o diretor José Maria Vieira, dentista e professor de ciências, o único que botava ordem e o terror entre os estudantes. Quando ele aparecia, a gente sumia, sorte de quem pudesse se esconder porque ele era sério, competente e enérgico. A professora Lenita Vieira, que também veio com a família de Minas, era maravilhosa, colírio para os olhos e música para os ouvidos. O Padre Carmelão era terrível, ai de quem aprontasse alguma no fundão da sala porque sua pontaria com o apagador era certeira. Com ele não tinha brincadeira... Já o Padre Carmelo Mercieca, um maltês que chegara ainda seminarista, era um doce. Lembro-me das suas primeiras lições de francês que repetia meio cantado: "Les objets de l´écollier´.

Para que o ginásio funcionasse era necessário ter um número X de alunos. Houve uma chamada geral para quem tivesse feito o primário e um curso de admissão ao ginásio, ao final do qual se prestava uma prova para "passar para o ginásio". Na pequena cidade foi uma revolução: gente nova, coisas novas, escola nova, as matérias separadas, um monte de cadernos e livros, um professor para cada área, enfim, animação total.

Com sacrifício minha mãe matriculou-nos no ginásio. Aí veio o uniforme no qual me sentia o máximo: saia azul de tergal plissada, blusa branca com as iniciais bordadas no bolso, gravata azul, meias três quartos e sapatos pretos, além do uniforme de educação física: shorts com elástico e blusa azuis. E o Kichute... ah, esse era o melhor. Tão lindo, cano alto, novinho em folha e só podia usar nas aulas que, na maioria das vezes, era jogo de bola queimada. E já tínhamos os times certos: Maria Tanaka X Dora Alice. Eu ia para o time da Maria Tanaka que não se deixava "queimar" nunca. Pulava, abaixava, desviava, levantava e estava ilesa. Nunca se viu coisa igual! E a Dora era o nosso terror: queimava todo mundo com cada bolada no pé do ouvido!

As aulas eram uma maravilha! Ansiosa pelos livros, fiquei chateada porque, como minha irmã do meio estava um ano à frente, eu os reutilizaria. Em alguns gastei várias borrachas e muita paciência para apagar. Quanto aos livros de português e literatura, minha paixão, também fiquei decepcionada: minha irmã fez "bigodes" em todos os autores para deixá-los mais interessantes...e com tinta!

Mas o tempo de ginásio não se resumia em estudos e monotonia, pelo contrário. Adolescentes na maioria, pintávamos e bordávamos na sala, brincávamos nos intervalos e até "matávamos aula" para ficar à toa, papeando. Quando o diretor Zé Maria aparecia era "pernas pra que te quero" porque o "sabão" era terrível!

Vivíamos apaixonados, amores platônicos que nem chegavam a ser revelados e já eram esquecidos para o coração ter um novo dono. Escrevíamos nossos nomes nos muros do colégio, mandávamos bilhetinhos na hora da aula e recados nos intervalos. Fazíamos acrósticos com os nomes dos amados, escrevíamos em relicário, enfim, era um movimento só que nem sei como fazíamos tudo isso e ainda estudávamos. O ginásio era, antes de tudo, vida e movimento, alegria, evolução, modernidade. Havia as comemorações cívicas e o tradicional Desfile de 7 de Setembro, com fanfarra e tudo, além de outras festividades.

Nossas vidas, paixões e alegrias misturavam-se às idas e vindas ao Colégio, a pé, como um bando de passarinhos arruaceiros e alegres. Tudo era motivo de festa, de riso, e choro também, as novidades giravam em torno dos acontecimentos do ginásio. Em casa comentávamos sobre as aulas, os professores, as colas na prova, os namoros... E o tempo ia passando e nos preparando para a vida com a leveza das descobertas essenciais, como o desabrochar de uma flor que um dia daria fruto, mas por enquanto se encantava com a alegria incomparável da adolescência e da juventude, nos inesquecíveis tempos do Ginásio Estadual Nossa Senhora das Graças.

ESTELA MARIA FREDERICO FERREIRA, leitora da FOLHA

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