Curitiba Apesar da Araucária (araucaria angustifolia) ser o símbolo do Paraná, pouco se sabe sobre as implicações sociais, econômicas e ambientais da coleta e venda da semente comestível da árvore. O pinhão, bastante valorizado na cozinha de inverno e facilmente encontrado nas feiras e mercados nesta época do ano, vira uma incógnita quando se trata da sua cadeia produtiva. Segundo especialistas, isso se deve ao histórico de desenvolvimento econômico do Estado pautado pela extração madeireira. Outros produtos florestais nunca despertaram interesse e ficaram marginalizados nesse processo com exceção da erva-mate por serem considerados pouco rentáveis.
Um dos raros estudos científicos sobre o pinhão foi realizado por engenheiros florestais e professores da Universidade Federal do Paraná. O Projeto Pinhão, concluído há dois anos, traça um perfil sócio-econômico que mostra estar a produção intimamente ligada a sobrevivência de várias famílias de baixa renda. ''Esse foi um dos dados mais relevantes, porque o pinhão se torna fonte de renda essencial para essas pessoas durante o outono e inverno, época em que aumenta o desemprego na agricultura'', informa o professor João Carlos Garzel. Ele acrescenta que o pinhão movimenta a mão-de-obra de pequenos produtores, coletores, transportadores e atacadistas, principalmente na região Centro-Sul, onde se concentra o bioma araucária.
A sazonalidade da produção associada ao elevado grau de perecividade restringe a comercialização do produto, entre março e junho, devido ao baixo grau de industrialização do pinhão, vendido basicamente in natura. ''Fizemos o estudo em cima de dados de Curitiba, Guarapuava e União da Vitória. Nas Centrais de Abastecimento (Ceasa) da capital fica concentrada a maior parte da venda e percebemos que não há relação entre o volume e o valor comercializado, porque o pinhão não tem produção organizada e não responde a estes estímulos do mercado'', disse. ''Sabe-se que o preço no final da safra é menor. O estudo apontou que a comercialização média anual é de 1,3 mil toneladas e que houve queda no valor real do produto, entre 1992 e 2004'', acrescenta Garzel.
O professor explica que nas pequenas propriedadess (menos de 1 hectare), o pinhão se apresenta como uma renda extra, ao contrário das grandes (mais de 100 hectares). ''Há pouco tempo se criou o interesse pelos produtos não-madeiráveis, conceito que só recentemente vem sendo aplicado. A cadeia produtiva do pinhão é dinâmica, desde a pessoa que entra na floresta para colheita até o consumidor final. E também gera grandes negócios, basta agregar qualidade ao produto'', ressalta. ''O Estado deve conscientizar os produtores de que a floresta pode gerar renda e não apenas conservar o que já tem. Isso pode, inclusive, aumentar a área de floresta nativa, que no Paraná é bastante reduzida'', sugere Garzel.

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